A
confiança é um pilar essencial na construção de uma relação a dois,
especialmente numa relação amorosa que pretenda caminhar para níveis de
intimidade mais elevados. Tendo esta como base – a confiança – estamos mais
predispostos e seguros para momentos de autorrevelação e partilha de
experiências, atitudes e emoções «muito nossas» (momentos de grande
vulnerabilidade). Sem a existência de confiança, no outro e na relação, a
evolução construtiva e positiva de uma relação amorosa, que se quer íntima,
fica seriamente comprometida. Porém, admitamos que é um processo complexo. Para
que possamos percecionar a confiança no outro há que acreditar (e comprovar)
que ele é confiável, que não nos julgará, que não usará contra nós aquilo que
estamos a partilhar, que nos apoiará, nomeadamente um apoio emocional
(compreensão, aceitação e validação dos sentimentos), e que almeje e cultive um
equilíbrio em termos de poder. Mas, como já foi referido, para além da
confiança no outro é imprescindível existir a confiança na relação que está a
ser construída (diariamente). Para tal, percecioná-la como duradoura é uma
ajuda preciosa. Esta forma de encarar a relação permite que nos sintamos mais
seguros nos momentos de autorrevelação e partilha, quando a fragilidade e risco
estão inevitavelmente presentes.
Na
atualidade, o grande desafio está precisamente na nossa capacidade de confiar
no outro e na relação. É indispensável para a nossa saúde mental (e para o
nosso bem-estar geral) podermos confiar nas pessoas e no futuro das relações
interpessoais mais significativas que vamos construindo. Não é saudável, nem
aconselhável, confiarmos somente em nós próprios. Contudo, não são raras as
vezes que ouvimos alguém (ou nós mesmos) proferir as seguintes afirmações: «Já
não confio em ninguém!»; «Não dá para confiar em ninguém!»; «A falta de
confiança nele(a) já não me permite acreditar no futuro da relação!»; «A minha
relação não está no bom caminho porque não confiamos um no outro!». Estes
pensamentos são frutos da herança de um modelo de sociedade que coloca
frequentemente as relações interpessoais na corda bamba. Uma das razões para
este fenómeno suceder é o caráter imaturo e descartável que os indivíduos levam
para a vivência relacional, à semelhança da relação que assumem com os objetos
de consumo. Assim, as relações são muitas vezes encaradas como «relações de bolso» (expressão usada
pelo sociólogo Zygmunt Bauman), ou seja, quando já não se obtém prazer ou
satisfação com o outro e com a relação, opta-se por deitar fora e arranjar
alguém melhor (com uma versão mais apetecível, pelo menos aparentemente). Este
fenómeno revela a pouca sensibilidade que decorre de modelos educativos e
sociais adversos a uma resolução efetiva dos problemas ou dos desafios que
surgem no seio das relações, havendo uma profunda centração no «eu» (uma
cultura impositora narcísica). De notar que não é obrigatório viver uma relação
amorosa de forma duradoura (embora seja benéfico percecioná-la como tal
enquanto se está nela), pois nalguns casos é mesmo desejável, ou até
absolutamente necessário, que o relacionamento termine (para o bem da díade e
de outras pessoas direta e indiretamente envolvidas). Todavia, em muitos casos
a persistência e o investimento na resolução construtiva dos desafios que vão
surgindo na relação é, sem dúvida alguma, o mais sadio para todas as partes
envolvidas. Para que tal aconteça, entre muitos outros aspetos que serão
abordados em futuros momentos de reflexão no Sentimento de Pertença, é fundamental que nos tornemos pessoas de
confiança, ou seja, temos que estar verdadeiramente atentos e abertos às
necessidades do outro e da relação, assumindo uma postura responsável, genuína
e confiável. Temos que conquistar uma sensibilidade que nos permita sentir
plenamente o que o outro tem para nos dar e também para que nós possamos dar.
Se damos sem receios e recebemos de «coração aberto» é porque amamos e
confiamos no outro e na relação que se está a edificar de dia para dia.
Sinta
o poder de ser confiável e de confiar. Com esse poder poderá viver momentos
únicos, com consequências muito positivas e potenciadoras de um desenvolvimento
pessoal e relacional que superará o idealizado. A partir desse momento, saberá
que pode confiar em si, no outro e na relação e sentir-se-á livre e seguro(a)
para fechar os olhos e dizer com segurança: «Sente o que tenho para te dar!».

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