terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A confiança (no outro e na relação)




A confiança é um pilar essencial na construção de uma relação a dois, especialmente numa relação amorosa que pretenda caminhar para níveis de intimidade mais elevados. Tendo esta como base – a confiança – estamos mais predispostos e seguros para momentos de autorrevelação e partilha de experiências, atitudes e emoções «muito nossas» (momentos de grande vulnerabilidade). Sem a existência de confiança, no outro e na relação, a evolução construtiva e positiva de uma relação amorosa, que se quer íntima, fica seriamente comprometida. Porém, admitamos que é um processo complexo. Para que possamos percecionar a confiança no outro há que acreditar (e comprovar) que ele é confiável, que não nos julgará, que não usará contra nós aquilo que estamos a partilhar, que nos apoiará, nomeadamente um apoio emocional (compreensão, aceitação e validação dos sentimentos), e que almeje e cultive um equilíbrio em termos de poder. Mas, como já foi referido, para além da confiança no outro é imprescindível existir a confiança na relação que está a ser construída (diariamente). Para tal, percecioná-la como duradoura é uma ajuda preciosa. Esta forma de encarar a relação permite que nos sintamos mais seguros nos momentos de autorrevelação e partilha, quando a fragilidade e risco estão inevitavelmente presentes. 
Na atualidade, o grande desafio está precisamente na nossa capacidade de confiar no outro e na relação. É indispensável para a nossa saúde mental (e para o nosso bem-estar geral) podermos confiar nas pessoas e no futuro das relações interpessoais mais significativas que vamos construindo. Não é saudável, nem aconselhável, confiarmos somente em nós próprios. Contudo, não são raras as vezes que ouvimos alguém (ou nós mesmos) proferir as seguintes afirmações: «Já não confio em ninguém!»; «Não dá para confiar em ninguém!»; «A falta de confiança nele(a) já não me permite acreditar no futuro da relação!»; «A minha relação não está no bom caminho porque não confiamos um no outro!». Estes pensamentos são frutos da herança de um modelo de sociedade que coloca frequentemente as relações interpessoais na corda bamba. Uma das razões para este fenómeno suceder é o caráter imaturo e descartável que os indivíduos levam para a vivência relacional, à semelhança da relação que assumem com os objetos de consumo. Assim, as relações são muitas vezes encaradas como «relações de bolso» (expressão usada pelo sociólogo Zygmunt Bauman), ou seja, quando já não se obtém prazer ou satisfação com o outro e com a relação, opta-se por deitar fora e arranjar alguém melhor (com uma versão mais apetecível, pelo menos aparentemente). Este fenómeno revela a pouca sensibilidade que decorre de modelos educativos e sociais adversos a uma resolução efetiva dos problemas ou dos desafios que surgem no seio das relações, havendo uma profunda centração no «eu» (uma cultura impositora narcísica). De notar que não é obrigatório viver uma relação amorosa de forma duradoura (embora seja benéfico percecioná-la como tal enquanto se está nela), pois nalguns casos é mesmo desejável, ou até absolutamente necessário, que o relacionamento termine (para o bem da díade e de outras pessoas direta e indiretamente envolvidas). Todavia, em muitos casos a persistência e o investimento na resolução construtiva dos desafios que vão surgindo na relação é, sem dúvida alguma, o mais sadio para todas as partes envolvidas. Para que tal aconteça, entre muitos outros aspetos que serão abordados em futuros momentos de reflexão no Sentimento de Pertença, é fundamental que nos tornemos pessoas de confiança, ou seja, temos que estar verdadeiramente atentos e abertos às necessidades do outro e da relação, assumindo uma postura responsável, genuína e confiável. Temos que conquistar uma sensibilidade que nos permita sentir plenamente o que o outro tem para nos dar e também para que nós possamos dar. Se damos sem receios e recebemos de «coração aberto» é porque amamos e confiamos no outro e na relação que se está a edificar de dia para dia.
Sinta o poder de ser confiável e de confiar. Com esse poder poderá viver momentos únicos, com consequências muito positivas e potenciadoras de um desenvolvimento pessoal e relacional que superará o idealizado. A partir desse momento, saberá que pode confiar em si, no outro e na relação e sentir-se-á livre e seguro(a) para fechar os olhos e dizer com segurança: «Sente o que tenho para te dar!».

 

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