A
convicção com que algumas pessoas afirmam que «para um bom entendedor meia
palavra basta» (ou palavra nenhuma), será um indicador da enorme perspicácia do
ser humano ou poderá querer dizer que os problemas comunicacionais estão
fortemente presentes na nossa sociedade? Não desconsiderando a perspicácia de
tais seres (nós, os humanos) em muitas situações, creio que a prática frequente
do uso de «meias palavras» cria problemas de comunicação e agudiza-os. Assim, a
afirmação supracitada está a enganar-nos a todos e a fazer com que os seus
seguidores estejam a prejudicar os seres com quem se relacionam e também a si
próprios, pela assunção de uma forma e de um conteúdo (consciente ou
inconscientemente) arrogante nos processos comunicacionais.
Focando-me
nas relações amorosas, posso dizer que muitos dos problemas que surgem neste
tipo de relações estão relacionados com uma deficiente ou disfuncional
comunicação (e facilmente consegue-se transpor para outros tipos de relações
interpessoais), parecendo não existir um recetor e um emissor, não havendo a
paciência e/ou a capacidade de escutar, e também estando ausente a
transparência e a clareza (necessárias) nas mensagens que vão sendo
transmitidas, tendo como consequência vários conjuntos de letras indecifráveis.
Repetidamente, estes fenómenos começam a espoletar demasiadas discussões
desagradáveis e destrutivas. Muitas delas encaminham-se a passos largos para
uma ausência absoluta de diálogo, alimentando um afastamento tão cruel que pode
levar a uma rutura silenciosa avassaladora (pois arrasta consigo as
consequências pessoais e relacionais de toda a longa vivência desarmoniosa).
Outras tantas rumam para uma proximidade (tão violenta) que ultrapassa os
limites e literalmente magoa e fere (podendo adquirir um caráter permanente
nalguns casos).
Antes
das extremas consequências, este caminhar sinuoso chega a um momento em que as
conclusões tiradas pelos intervenientes (ou por apenas um deles) são as
seguintes: «Não há nada a fazer!»; «Ele(a) não me compreende!»; «Já tentei de
tudo! Ele(a) se não vê é porque não quer! O melhor é mesmo ir cada qual para
seu lado!». Pensamentos que são reforçados por quem os rodeia, com um «se assim
é, não há mesmo nada a fazer! Aliás, só tens uma coisa a fazer. Saltar fora!».
Estes pensamentos (que nem sempre são verbalizados, nem coerentemente
concretizados) quando se aliam às dinâmicas comunicacionais complicadas e
desinteressantes (pelo caráter não construtivo) vividas entre os membros do
casal (e, muitas vezes, com a companhia de outras pessoas que nos apercebemos,
com algum distanciamento temporal, a sua inutilidade naquele momento delicado
da nossa vida), não são de todo aconselháveis para a relação, não são
desejáveis para se levar para toda a vida e em nada contribuem como modelos
capazes de transformar positivamente a descendência de todos nós. Assim,
deve-se adotar estratégias construtivas quando surgem estes tipos de
pensamentos (e quando reforçam os mesmos). Devem ser encarados como sinais de
alerta que são bem-vindos para a mesa da resolução efetiva de problemas (mesmo
que aparentemente esta ação possa parecer tardia) e não para o campo de
destruição (internamente) maciça. No entanto, o ideal é adotar uma atitude
preventiva e proativa, quer na ausência de sinais ou na presença de sinais
subtis que possam parecer revelar futuros problemas.
Aliem-se
a uma comunicação eficiente! Escutar (e sentir) o outro é um ato inteligente e
fundamental para uma eficiente resolução de problemas da relação e também ajuda
a consolidar uma relação saudável, culminando num presente e num futuro mais
risonho. Porém, espera-se que nesse momento de escuta não se ouçam «meias
palavras». Para tal acontecer, deve haver um esforço clarificador de quem envia
a mensagem. Assim, deve assumir-se o duplo papel, de emissor e recetor, de uma
forma plena. O papel do emissor é enviar uma mensagem clara e o papel do
recetor é zelar pela adoção de uma verdadeira escuta (ativa). Importante
acrescentar que se, mesmo com esforço, não conseguirem ficar esclarecidos(as),
devem questionar o outro para que ele reformule a mensagem (que não foi
compreendida). Estas rotinas comunicacionais têm um poder muito grande de
extrapolação para os outros contextos da vida, beneficiando dessa forma todo o
jogo comunicacional em todas as relações interpessoais existentes.
Recentrando
a temática nas relações amorosas, e em jeito de síntese, pode dizer-se que
nestas relações a comunicação é como uma dança a dois: é indispensável o
conhecimento (a teoria), o treino (a prática) e a sensibilidade (o toque
pessoal delicado, criativo e respeitador) para que tudo flua rumo à excelência
da performance, da satisfação pessoal e da harmonia relacional. Tal como na
dança, as relações amorosas precisam desta dedicação para que possam caminhar para
níveis de satisfação mais elevados e mais estáveis. É caso para dizer: «Dança,
dança,…».

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