sexta-feira, 12 de abril de 2013

A dança da comunicação a dois






          A convicção com que algumas pessoas afirmam que «para um bom entendedor meia palavra basta» (ou palavra nenhuma), será um indicador da enorme perspicácia do ser humano ou poderá querer dizer que os problemas comunicacionais estão fortemente presentes na nossa sociedade? Não desconsiderando a perspicácia de tais seres (nós, os humanos) em muitas situações, creio que a prática frequente do uso de «meias palavras» cria problemas de comunicação e agudiza-os. Assim, a afirmação supracitada está a enganar-nos a todos e a fazer com que os seus seguidores estejam a prejudicar os seres com quem se relacionam e também a si próprios, pela assunção de uma forma e de um conteúdo (consciente ou inconscientemente) arrogante nos processos comunicacionais.
Focando-me nas relações amorosas, posso dizer que muitos dos problemas que surgem neste tipo de relações estão relacionados com uma deficiente ou disfuncional comunicação (e facilmente consegue-se transpor para outros tipos de relações interpessoais), parecendo não existir um recetor e um emissor, não havendo a paciência e/ou a capacidade de escutar, e também estando ausente a transparência e a clareza (necessárias) nas mensagens que vão sendo transmitidas, tendo como consequência vários conjuntos de letras indecifráveis. Repetidamente, estes fenómenos começam a espoletar demasiadas discussões desagradáveis e destrutivas. Muitas delas encaminham-se a passos largos para uma ausência absoluta de diálogo, alimentando um afastamento tão cruel que pode levar a uma rutura silenciosa avassaladora (pois arrasta consigo as consequências pessoais e relacionais de toda a longa vivência desarmoniosa). Outras tantas rumam para uma proximidade (tão violenta) que ultrapassa os limites e literalmente magoa e fere (podendo adquirir um caráter permanente nalguns casos).
Antes das extremas consequências, este caminhar sinuoso chega a um momento em que as conclusões tiradas pelos intervenientes (ou por apenas um deles) são as seguintes: «Não há nada a fazer!»; «Ele(a) não me compreende!»; «Já tentei de tudo! Ele(a) se não vê é porque não quer! O melhor é mesmo ir cada qual para seu lado!». Pensamentos que são reforçados por quem os rodeia, com um «se assim é, não há mesmo nada a fazer! Aliás, só tens uma coisa a fazer. Saltar fora!». Estes pensamentos (que nem sempre são verbalizados, nem coerentemente concretizados) quando se aliam às dinâmicas comunicacionais complicadas e desinteressantes (pelo caráter não construtivo) vividas entre os membros do casal (e, muitas vezes, com a companhia de outras pessoas que nos apercebemos, com algum distanciamento temporal, a sua inutilidade naquele momento delicado da nossa vida), não são de todo aconselháveis para a relação, não são desejáveis para se levar para toda a vida e em nada contribuem como modelos capazes de transformar positivamente a descendência de todos nós. Assim, deve-se adotar estratégias construtivas quando surgem estes tipos de pensamentos (e quando reforçam os mesmos). Devem ser encarados como sinais de alerta que são bem-vindos para a mesa da resolução efetiva de problemas (mesmo que aparentemente esta ação possa parecer tardia) e não para o campo de destruição (internamente) maciça. No entanto, o ideal é adotar uma atitude preventiva e proativa, quer na ausência de sinais ou na presença de sinais subtis que possam parecer revelar futuros problemas.
Aliem-se a uma comunicação eficiente! Escutar (e sentir) o outro é um ato inteligente e fundamental para uma eficiente resolução de problemas da relação e também ajuda a consolidar uma relação saudável, culminando num presente e num futuro mais risonho. Porém, espera-se que nesse momento de escuta não se ouçam «meias palavras». Para tal acontecer, deve haver um esforço clarificador de quem envia a mensagem. Assim, deve assumir-se o duplo papel, de emissor e recetor, de uma forma plena. O papel do emissor é enviar uma mensagem clara e o papel do recetor é zelar pela adoção de uma verdadeira escuta (ativa). Importante acrescentar que se, mesmo com esforço, não conseguirem ficar esclarecidos(as), devem questionar o outro para que ele reformule a mensagem (que não foi compreendida). Estas rotinas comunicacionais têm um poder muito grande de extrapolação para os outros contextos da vida, beneficiando dessa forma todo o jogo comunicacional em todas as relações interpessoais existentes.
Recentrando a temática nas relações amorosas, e em jeito de síntese, pode dizer-se que nestas relações a comunicação é como uma dança a dois: é indispensável o conhecimento (a teoria), o treino (a prática) e a sensibilidade (o toque pessoal delicado, criativo e respeitador) para que tudo flua rumo à excelência da performance, da satisfação pessoal e da harmonia relacional. Tal como na dança, as relações amorosas precisam desta dedicação para que possam caminhar para níveis de satisfação mais elevados e mais estáveis. É caso para dizer: «Dança, dança,…».

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