Já
ouviram dizer, vezes sem conta, e vocês próprios verbalizaram o seguinte: «eu
tenho poucos amigos, mas são muito bons». São mesmo! Acreditem! A amizade, que
está presente em todas as relações interpessoais de envolvimento e envolvência
genuína (por exemplo, amigos, namorados e casados), tem uma caraterística
singular que permite juntar mais alguém no nosso mundo (e considerar aquela
pessoa uma verdadeira amiga): «Se tu corres riscos, eu também corro. Se tu vais
por esse caminho, eu estarei sempre contigo». É a amizade incondicional ou a
incondicionalidade da amizade. É essa (omni)presença que nos faz proferir, com
um enorme sorriso nos lábios e com um orgulho incomensurável, «esta pessoa é
minha amiga» e/ou «eu sou amigo(a) desta pessoa».
De
certa forma, a (verdadeira) amizade é interesseira. Nestas relações há um forte
interesse pelo bem-estar da outra pessoa, pela sua felicidade, e também pelo
regozijo próprio, pois «se tu estiveres bem, eu também estou». Assim, diria que
a amizade é altruísta e «egoísta». No entanto, os resultados individuais
prazerosos são consequência de um investimento no outro, por isso coloquei
entre parêntesis a última palavra da frase anterior. É um excelente exemplo de
obtenção de benefícios próprios, mesmo estando com o foco direcionado para
alguém. Sem esperarmos por eles, automaticamente aparecem. Pensemos seriamente
no que andamos a fazer para lutar pela nossa felicidade…
Temos
modelos tão bons dentro da nossa vida que nos permitem viver felizes e não
estamos a aproveitá-los para outros contextos do nosso dia-a-dia. Andamos atrás
da felicidade tão centrados em nós próprios, e em estratégias de todo o tipo
(por exemplo, medicamentosas e transcendentais), que nos esquecemos de olhar
para dentro das nossas relações, especialmente para os belos exemplos que temos
nas amizades. Jamais se esqueçam que um investimento crescente nas relações vai
traduzir-se num bem-estar pessoal. Nem sempre o caminho mais direto é que nos
leva mais rapidamente à meta. Mas, não procurem a felicidade investindo nos
outros, procurem os outros (de uma forma natural, genuína) e deixem a
felicidade ser uma consequência.
Termino
com um enquadramento da amizade nas relações de maior intensidade amorosa.
Assim, devo proferir que este ingrediente fantástico da vida, a amizade, também
deve ser base estruturante de uma relação de maior intimidade (por exemplo, uma
relação conjugal). Tal componente é essencial, numa relação que se pretende
mais íntima, satisfatória e duradoura. Claramente, a amizade (o chamado
companheirismo em idades mais maduras) é um pilar central na manutenção de uma
relação de cariz mais íntimo e que pretende prolongar-se na linha do tempo. A
construção fugaz das relações, e fortemente baseada na fonte do desejo e até da
desejabilidade social, é um fator que tem contribuído para a instabilidade
relacional. Portanto, o caminho é a amizade para sempre.

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