Já sentiu que uma relação de
namoro terminou demasiado cedo, quase parecendo que nem sequer iniciou?
Lembra-se
do dia em que se voltou a cruzar (e, nalguns casos, parar para conversar) com
uma pessoa que noutros tempos não teve um significado muito especial para si,
mas que dessa última vez «mexeu» bastante consigo? A sua memória decidiu
ativar-se de uma forma emocionalmente intensa, com um elevado grau de
desorganização. Recordou-se do primeiro contacto, reinterpretou esse momento, a
relação vivida, e lançou o caos na sua cabeça. Começou a pensar que nalguns
momentos da vida as «pessoas certas» (isto é, pessoas que se encaixam na sua
desejabilidade relacional) aparecem nas «alturas erradas» (isto é, num momento
da vida em que está demasiado focado(a) noutros pormenores e descentrado(a) do
que está à sua frente). Tem a sensação que houve um desperdício de uma
oportunidade para construir um relacionamento satisfatório, com um futuro
promissor. Questiona-se sobre o tempo de entrada destes pensamentos, ou seja, sobre as razões do seu atraso (pois
só acederam à sua consciência muito depois do término desse (curto) namoro –
por vezes, meses ou anos após a despedida do referido relacionamento). Esse
(re)encontro levou a que começasse a questionar-se sobre o valor que deu a esse
laço momentâneo do passado. Algo mais podia ter sido feito e algumas palavras
ficaram por dizer? Mentiras foram ditas e ações imaturas foram concretizadas?
Parece-lhe que a história que ajudou a criar, e da qual fez parte, ficou
incompleta? Agora faria tudo de forma diferente? Deveria ter ido mais longe?
Não se envolveu o suficiente? Foi fiel aos seus sentimentos? O que o(a) levou a
afastar-se? O que o(a) levou a não avançar para terrenos mais firmes? Deverá e
poderá fazer algo mais neste momento?
Na
vida de algumas pessoas estas questões aparecem quando, de alguma forma, estão
a fazer um balanço da vida (o reencontro, quando acontece, é apenas um clique,
um «efeito gatilho» ou, se preferirem, mais uma peça do puzzle). Esses balanços
surgem, normalmente, quando as pessoas estão insatisfeitas com a vida, quando
desejam que surjam mudanças e quando questionam seriamente se o caminho que
estão a levar é aquele que as fará mais felizes. Assim, pode dizer-se que estas
questões são úteis e pertinentes?
Resposta A: Sim.
Resposta B: Não.
As
duas respostas estão certas. As questões levantadas podem ser úteis e
pertinentes, como também podem ser inúteis e prejudiciais. Deve-se estar alerta
para não vivermos eternamente com estes pensamentos. Temos que encontrar rapidamente
respostas para não comprometermos o nosso futuro. Se ficarmos presos no que
poderíamos ter feito, não damos espaço para pensarmos naquilo que poderemos
fazer. Devemos utilizar o passado (e tudo o que foi eventualmente mal
resolvido) para aprendermos e não para nos castigarmos. Assim, sugiro que
façamos uma análise escrita sobre as razões que nos levaram a não dar
continuidade à tal relação do passado, os pontos positivos e negativos da
mesma, considerando a nossa vida e a nossa forma de pensar da altura e a atual,
a nossa situação «de hoje», como está a tal pessoa (por exemplo, se está
comprometida, como está a sua vida, e como é a sua atual forma de ver o mundo,
inclusivamente o das relações), que sentido faz dar continuidade a um processo
que já teve o seu fim, entre outros aspetos que o (a) vão ajudar a uma maior
clarificação.
Depois,…
… se a balança pesar para o lado da relação
incompleta: talvez a relação não tenha terminado; talvez a pessoa não se tenha
verdadeiramente afastado; talvez você não se tenha desprendido da pessoa;
talvez tenha mesmo ficado algo por dizer e fazer; talvez tenha oportunidade de
dar continuidade à mesma (um novo capítulo da história), e aí encontrará as
respostas às suas dúvidas; talvez deva dar continuidade ao relacionamento, mas
não ao namoro. Talvez…
…
se a balança não pesar para o lado da relação incompleta: talvez a história
tenha terminado com o melhor fim, mesmo que tenha sido um final aberto; talvez
o melhor seja pôr um ponto final imediatamente, de modo a que esses pensamentos
deixem de perturbar o quotidiano. E quem sabe se essa pessoa não terá um outro
papel na sua vida que não aquele da primeira vez? Talvez…
Acima
de tudo, o fundamental é ter consciência que os pensamentos «se eu…», «se
isto…», «se aquilo…», não trazem nada de volta, nem dão respostas
clarificadoras, se apenas ficarem por eles mesmos. São apenas cenários
hipotéticos e não factos da «vida real». Se tem dúvidas, esclareça-as (não as
alimente). E consciencialize-se que o que foi vivido deve servir de
aprendizagem para que tenha respostas mais confiantes e seguras para os
desafios que estão mesmo aí ao virar da esquina. Não nutra o presente somente
com condimentos do passado porque o «amanhã de ontem» (expressão utilizada pela
psicóloga Maria Jesus Álava Reyes, no livro A
Inutilidade do Sofrimento) está carregado de surpresas e oportunidades para
encontrarmos o que desejamos, desde que façamos alguma coisa que marque o nosso
presente. Será que a sua história ficou mesmo incompleta? Não imagine. Procure
saber. Escreva, analise, verbalize, esclareça-se e decida com firmeza.

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