É
inaceitável a facilidade, a arrogância e a altivez com que se proferem nomes
depreciativos (provindos de pensamentos preconceituosos) para rotular e
ostracizar as pessoas que têm uma orientação sexual homossexual. A memória e a
história da sociedade não deve ser usada somente para responder acertadamente
às perguntas do «Quem quer ser milionário».
Devemos aprender com as mesmas, assim como fazemos com as memórias da nossa
história de vida que são essenciais para o nosso relacionamento diário com o
mundo (para vivermos e sobrevivermos). Não esqueçamos os males que já foram
feitos (e os que ainda são) no nosso mundo por preciosismos preconceituosos e
por detalhes validados pela ignorância de pessoas perversamente hedonistas e
cronicamente frustradas. Neste patamar caberiam muitas temáticas, mas pretendo
pronunciar-me sobre os estigmas que continuam a existir em torno da
homossexualidade.
Poderia
dizer que «é só uma questão de tempo», mas estaria a ser extramente incorreto e
altamente passivo. Todos sabemos que a evolução positiva de uma sociedade, em
direção ao respeito por todas as pessoas da Terra, é lenta e gradual (isto é,
requer tempo), mas também devemos saber que a aprendizagem só pode ser feita
com ação (no tempo, está claro). Para «algumas cabeças» (as das certezas
absolutas e dogmas conservadores) o mundo continua a estar a preto e branco (ou
seja, não estão agir no tempo), não abrindo espaço para a paleta de cores que o
mundo real tem (o que permitirá agir construtivamente na linha do tempo). Há
ainda «outras cabeças» que se dizem dignas de uma evolução de excelência e que
na retaguarda invisível dos seus discursos eloquentes sobre o respeito pelos
outros estão pensamentos e práticas absolutamente contraditórias que
comprometem a dignidade de outras pessoas (ou seja, marcaram a sua ação no
tempo através de máscaras discursivas, trabalhando apenas o exterior – não o
que sentem e pensam, mas o que consideram que devem dizer). Dentro destas
cabeças, e talvez para além das mesmas, continuam a surgir discursos vazios,
ficcionais e sobranceiros com objetivos diversos, tais como: trazer ruído para
junto daqueles que não estão (bem) informados (manipulação de opinião);
abrilhantar a redoma do seu narcisismo, voltado para o mundo mediático (no
limite um certo sadismo e um egotismo depravado); e satisfazer a necessidade de
autoafirmação e afirmação mediática para que possam dar a ideia que o seu
conhecimento é totalitário (usando e abusando, muitas vezes, do protagonismo
mediático que vêm alcançando em determinadas áreas do saber). Daí a importância
de uma sociedade informada, (auto)crítica e afirmativa em termos sociais (e
políticos), precisamente para que não se continue a permitir proliferar
narrativas vis (pelo menos dentro da nossa cabeça).
Os
argumentos que legitimam a homofobia, baseados em princípios morais estanques e
em conceitos muito restritos do funcionamento de uma sociedade (especialmente,
neste caso, no que se refere ao bloqueio criado face à livre expressão do amor
e da sexualidade entre pessoas do mesmo sexo), já não são suportáveis e devem
ser erradicados da vida de todos (desde a raiz até às pontas, num clima de
paz), em prol de um mundo onde as pessoas possam usufruir e vivenciar
saudavelmente os frutos das suas decisões. Passemos o discurso para um outro
nível, ou seja, avancemos de uma vez por todas para modelos educativos baseados
no respeito pelas diferenças. Basta de modelos que se regem pelo respeito de
todos aqueles que se encontram dentro da norma e pelo desrespeito direto ou
mascarado de todos os outros que vivem fora da mesma. Está na hora de eliminar
os mitos que vêm sendo criados à volta da homossexualidade. Devemos começar a
aperfeiçoar os manuais da sexualidade, da afetividade, das relações humanas, do
amor, da liberdade, e de tantos outros conceitos que estão tão fechados devido
aos tabus que ainda se alimentam nos dias de hoje. Basta de estigmatização,
preconceito e discriminação para com pessoas da mesma espécie que nós, isto é,
a espécie humana.
Parece-me
que já estamos há muito tempo noutro nível de discussão (que não aquele que
esbarra repetidamente no preconceito, na discriminação e no atropelo de
direitos humanos), pelo que devemos avançar para questões mais importantes (na
nossa construção pessoal, social e profissional). Não se deixará de respeitar o
ritmo natural de aprendizagem de cada um, mas não vamos «parar no tempo» (o que
algumas pessoas tanto desejam)! Só assim vamos informar melhor a sociedade,
dar-lhe o poder da informação (e não da desinformação). Só assim conseguiremos
de forma mais eficaz eliminar as atitudes e os comportamentos desrespeitadores
perante a diferença. Só com este passo, dado com convicção, é que surgirá uma
(desejável) consensual compreensão e aceitação de outras dinâmicas sociais e
familiares (por exemplo, a adoção e a coadoção em casais do mesmo sexo – dois
assuntos distintos mas igualmente merecedores de aceitação e legislação
favorável). Pensemos no superior interesse da sociedade: a aceitação da
diversidade respeitadora dos direitos humanos, para que possamos viver todos
com a mesma liberdade (de expressões) – que não é mais do que vivermos
verdadeira, digna, pacífica e saudavelmente a nossa vida (íntima, familiar e
social). É qualidade de vida, é bem-estar pessoal, relacional e social. Para
finalizar, não poderia deixar de falar no tão enunciado superior interesse das
crianças, quando se refere ao contacto ou convívio continuado das mesmas com
homossexuais. Assim, coloco a seguinte questão (que muitos ainda não devem ter
colocado a si próprios): sabendo que os modelos relacionais se constroem desde
pequenos, caberá a nós, adultos, continuar a alimentar uma teimosia
preconceituosa para com a diferença ou, pelo contrário, promover o respeito por
todas as pessoas e pelas suas relações? Na formulação das vossas respostas a
esta questão, talvez comecem a perceber o que é melhor para o desenvolvimento
emocional, afetivo, cognitivo e moral da criança (os futuros adultos).

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