quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Foge comigo, Maria!




De que modo a relação amorosa pode ajudar a responder à «crise»? Talvez a Maria nos ajude a dar a resposta. Decidiu partilhar connosco o que ainda não verbalizou com o seu marido:

«Amo-te tanto! Quero cuidar de ti, meu amor. Quero e vou estar contigo neste momento que tanto precisas (e em todos os outros que virão), tal como tenho estado sempre. Eu sei o quanto te custa ter ficado sem emprego e o quanto isso afeta o nosso quotidiano. Já estás há muito tempo nesta dura batalha contra o desemprego, procurando intensamente por uma oportunidade que te permita aplicar as tuas competências ao serviço de quem te valorize. Não tens respostas, não tens espaço, parece que o tempo foge. Se não foge, vai passando. O tempo passa e tu sentes-te inútil. O tempo voa e começas a duvidar das tuas capacidades. O tempo urge e as culpas cada vez mais caem para cima de ti. Alguns acusam-te, de certa forma, de não seres criativo, empreendedor, de não saberes vender o teu «produto», as tuas competências, de não gerares valor visível para os empregadores. Sei muito bem o que tens feito! A criatividade que espalhaste e que continuas a espalhar, os projetos que lançaste e as reuniões que tiveste! Continua a não aparecer uma oportunidade que seja! Foste fonte inspiradora de muita gente e agora não querem saber de ti. Eles não veem o que eu vejo! A tua dedicação, a tua luta, a tua persistência, a tua determinação, o teu esforço diário. Muitas vezes, pergunto para mim mesma: o que mais pode ele fazer? E tu, inconformado e resistente face às contrariedades, trazes sempre  uma nova ideia, um novo caminho, outra direção, outras saídas ou potenciais entradas no mundo do trabalho. Para ti trabalhar não é um luxo e nem uma questão de sorte. Para ti trabalhar é um direito, uma paixão, um amor, um mar de sabedoria, recheado de bons modelos para transmitires aos filhos que aí vêm, aos nossos filhos. Sonhas que eles vejam em ti um exemplo de homem e de trabalhador. Não tenho dúvidas que verão tudo isso. Terão o belo exemplo da tua força imensa. Uma força que transcende o teu sofrimento, pois eu sinto no fundo do teu olhar, bem junto do teu coração, o sofrimento que é para ti, o peso que carregas da incompreensão, da falta de reconhecimento e da falta de respeito, mas também vejo o teu trabalho diário e a tua determinação. Esse é o melhor exemplo que podes dar aos teus filhos e à sociedade. Seja lá que crise for esta – económica, financeira, de valores, de incompetência governativa, de desvalorização e descaraterização de alguns sujeitos (como uma prisão a céu aberto, em que os indivíduos, quase sem identidade, são meros números de um sistema pervertido) – eu nunca vou deixar que te pisem. Eu sei o teu valor, tenho os meus valores, e vou estar sempre contigo. Amo-te. Sei que a força da nossa relação vai manter-te firme e levar-te ao caminho que um dia nos vai fazer sorrir. Acredito em ti e em nós. Vou continuar a admirar-te. Vou cuidar sempre de ti. E, se algum dia pensares «foge comigo, Maria», se sentires que o melhor caminho é fugir para um local onde possamos ser mais felizes, se essa for a tua vontade, eu fujo contigo. Se quiseres ficar, eu fico. Os nossos filhos orgulhar-se-ão sempre de ti.».

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