Foste
tu que pegaste no meu livro? O teu livro? Eu peguei no nosso livro que deixaste
hoje de manhã em cima da mesa da sala. Sim, é esse. Lembraste quem me ofereceu
esse livro no dia do meu aniversário? Sim, fui eu. Como poderia esquecer?
Ofereci um belo livro para a nossa relação. Já o leste? Ainda não. Estava a
pensar fazê-lo agora. Ainda bem. Eu estava a pensar fazer o mesmo. Queres lê-lo
comigo? Claro que sim. Só temos que aplicar uma regra. Uma regra? Sim. Qual é?
Vamos ter que criar um imaginário comum. Aceitas o desafio? Que proposta
maravilhosa! Aceito. Só tenho uma dúvida. Qual é? Se não chegarmos a um
consenso quanto ao imaginário que vamos criar, como é que fazemos? É fácil.
Ganha a maioria. Maioria? Nós somos apenas dois! Não é bem assim. Se houver um
empate, o «nós» decide. Concordo. Decide-se com base em todas as construções
que já fizemos na relação. Sim, não diria melhor. Vamos começar? Eu estou
pronta. E tu? Eu estou pronto. O «nós» estará? Vamos responder afirmativamente
em uníssono? Claro. Um, dois, três… sim! Que comece a aventura. Eu acho que
esta história vai durar a nossa vida toda. Como é que imaginas isso? Um jardim
belo, no início do outono, com árvores muito altas. Estou a ver. Neste ilustre
espaço vejo uma flor laranja que parece brilhar. Aquela que está perto da
árvore mais alta? Sim, essa. É tão bela, não achas? É lindíssima! Estás a
sorrir e a olhar para a flor. Aliás, ambos estamos a fazer o mesmo. Eu vejo o
teu olhar apaixonado. Tens uns olhos lindos e uma alma fascinante. Sentes isso?
Sinto e vejo. Consegues descrever? Agora estamos a olhar um para outro, perto
da flor, e eu estou atraído pela profundeza do teu olhar. Um tom escuro que
parece ter uma janela que dá acesso a um caminho apetecível, mas, ao mesmo
tempo, são espelhos que permitem ver-me a mim próprio. Vejo o meu encantamento
quando os teus olhos são espelhos e vejo uma alma extensamente agradável que
parece estar a convidar-me para entrar (pela janela) e conhecê-la. Parece que
tenho que fazer uma escolha. Se assim for, não hesitarei em entrar. Tenho
muitos espelhos em casa, apesar de não serem tão encantadores como estes, por
isso tendo que tomar uma opção vou decidir entrar pela janela. Desculpa a
irreverência, mas não vejo uma porta. Estás à vontade. Se eu tivesse uma porta
tudo se tornava mais fácil e menos desafiante. Entra e pelo caminho começaremos
a ler o livro. Que excelente ideia! O teu lado sedutor deixa-me um largo
sorriso na alma. A tua sedução é que me fez abrir a janela. Tu já me abriste a
tua janela, mas nem reparaste que já entrei nela. Fui discreta e delicada.
Agora que estou dentro do teu olhar, tu vais saltar para o meu. Talvez seja
essa etapa que nos consiga levar à compreensão da vivência do «nós». És
extraordinária! Vou saltar. Não conseguirei ser discreto como tu foste, mas
prometo ser delicado. Tenho a certeza que sim. Quando é que vais saltar? Já
entrei. Só mesmo tu para me surpreenderes. Que querido que és. Pegas no livro
ou queres que seja eu a pegar? Já o tens na mão. Queres perguntar se quero lê-lo,
certo? É isso. Já sabias que eu ia fazê-lo. Sabes que adoro ouvir a tua voz. E
sabes o quanto admiro a delicadeza com que pegas nos livros, tal como fazes nos
gestos de carinho que me ofereces. És assim. Adoro-te. Que bom ouvir-te.
Fazes-me crescer. Fazes tão bem à nossa relação, sabias? Sei o quanto ambos
fazemos bem à nossa relação. Um dia, lá atrás no tempo, privilegiamos a arte do
nosso encontro e desde esse momento que temos vindo a dinamizar o lado criativo
e inspirador desta união. Vamos ler? O caminho está todo à nossa frente, só
temos de saborear a beleza que ele alberga dentro de si e para além de si
mesmo. Estou a adorar viajar contigo. Sempre sonhei ter ao meu lado uma boa
companhia, com quem pudesse envolver-me de uma forma genuína e baseada em
realidades construídas, fruto da nossa ação. Pediste emprestada essa palavra ou
já a adquiriste? Todas as palavras são emprestadas e podem ser usadas sempre
que quiseres, desde que o seu uso respeite a cadência do coração. No fundo,
tens que estimá-las como se fossem tuas. Compreendi. Um mau uso estraga as
palavras. Diria antes que um bom uso transforma-as em sementes de grande
qualidade. Mas, qual é a palavra que estás a falar? Ação. Vamos precisar dela
nesta viagem, por isso é que te perguntei se era tua. Fiquei esclarecido. Vou
agir ao ritmo da vida. Eu sei que sim. Aliás, nós sabemos. Vamos voltar ao
livro? Nunca saímos dele. Tens razão. O livro está sempre connosco. Vou começar
a ler as palavras que vejo. Vou fechar os olhos e espero pelos teus gestos que
folhearão as páginas. Conta comigo. Quero ouvir-te. Como imaginas a ouvir-me? A
tua voz é encantadora, como o chilrear de um pássaro atrevido. Percebes o que
quero dizer? Nem precisarias de dizê-lo. Só quis ouvir novamente o soar das
tuas palavras nos meus ouvidos. São sussurros esperançosos como a brisa de uma
noite de luar. Uau! Que cor magnífica aparece na primeira página. É uma cor tão
bela e tão leve que decidiu voar ao som do vento que nos está a presentear com
este arrepio. Conseguiste ler as palavras? Consegui. Algumas. Dizia que
ganharíamos muito em segui-la. Vamos segui-la. Para onde o vento está a
levá-la? Parece que vai ao encontro do rio. Temos de lá chegar antes que caia
nele. Temos que correr? Não. Também consegui ler que só conseguiremos chegar a
tempo se nos deliciarmos serenamente com as maravilhas que vamos encontrar até
lá. Cá entre nós, acho que ela gosta de dançar. A cor ou a folha do livro?
Talvez as duas. Dançar com o vento deve ser uma sensação de liberdade
extraordinária, pelo que quererão prolongar esse momento. Só temos que
respeitá-lo. Podemos continuar a ler, desde que não nos esqueçamos daquilo que
já li. Vou voltar ao livro. Vamos continuar a caminhar. Olha que bela folha
está naquela árvore! Nunca vi uma folha tão alegremente verde. Vês o sorriso na
sua cor? Posso ver pelo teu olhar? Estás dentro dele. É claro que podes. É
mesmo um verde sorridente. Sem lá estar nenhum sorriso, consigo senti-lo. Sabes
o que diz na segunda página? O quê? «O teu olhar de esperança leva-te de volta
à magia da tua infância». É a primeira frase desta página. Será a alegria da
nossa infância que vemos nesta folha? Ao dizeres isso lembrei-me de uma árvore
que plantei quando era muito nova e a festa que fiz quando pude contar aos meus
pais. Foi um momento mágico. Quando nós nos conhecemos, logo no primeiro dia,
ofereceste-me uma folha que disseste ser especial. Eu chorei de alegria. Tu
nunca percebeste a razão... Será que não? Não me digas… Pois, eu sabia que
tinhas plantado aquela árvore e tu soubeste que fui buscar ao chão dessa árvore
uma folha que caiu quando por lá passamos. Eu entreguei-ta, mas nada te disse.
Tu choraste e nada me disseste. Como sabias? Eu vi no teu olhar. Não te quis
dizer porque, se não fosse verdade, poderias pensar que eu era muito estranho
e, tendo acabado de te conhecer, a rapariga mais bonita da minha vida, não
queria deitar nada a perder. É incrível! Vou abraçar-te. Que bom abraço que
estou a sentir. Está a ser revigorante. Vamos avançar com mais fulgor. De mãos
dadas podemos continuar a apreciar esta viagem que mais parece um sonho. O que
está a voar além? Foi a outra folha do livro (a segunda) que também foi dançar
com o vento. Está a subir muito alto. Olha, agora estão as duas a dançar. Uma
delas pousou em cima daquela árvore. Conseguiremos lá chegar? Será que aquele
tronco nos pode ajudar? Creio que sim. Vou pegar nele. Tem cuidado! Já estou
habituado. Quando era novo, mais do que uma vez cheguei a salvar alguns gatos
que foram para cima de uma árvore. Utilizei um tronco muito parecido com este e
eles desceram por ele. Vou tentar tocar com este tronco na folha para ver se
ela cai. Conseguiste! A folha enrolou-se e vem a deslizar pelo tronco. É
verdade. Já a apanhei. A sensação que tenho é que salvei mais uma vida, tal
como os gatos da minha infância. Vou pô-la novamente no livro. É a folha que
estávamos a ler. Vê só o que diz a segunda frase: «Os bons momentos que
passaste serão recordados em cada gesto teu». Este livro é mágico? Parece-me
que sim. Continua a ler. Quero ver o que vai acontecer. Sim, vou continuar a
ler. Ainda vês a folha que vai para o rio a dançar com o vento? Estou a vê-la
acolá e a cor que transportava espalhou-se pelo resto da paisagem, tornando-a
ainda mais harmoniosa. A folha do livro dança muito bem. Gosto de observá-la.
Queres dançar comigo? Vamos dançar naquele espaço largo. Onde estão aquelas
árvores mais baixas? Exatamente aí. Estamos mesmo a chegar. Estás a ouvir os
pássaros a cantar? É um som aconchegante. Parece que foi feito para nós. Agora
que temos ritmo musical, vamos começar a dançar. Olha nos meus olhos e entra na
dança. Assim sou feliz. Estou a adorar dançar contigo. Vamos dançar também com
o vento? Sim. Excelente ideia. Fechemos os olhos e deixemo-nos levar. Tão doce
esta dança… Perdi-me no tempo! Os pássaros estão a voar para outro lado e
parece que estou a ouvir o rio a correr. Está a escurecer. Vamos apanhar a
folha. Dá-ma a tua mão. Juntos conseguiremos lá chegar. Eu levo o livro na
outra mão e a primeira folha vou juntar. Ela está muito longe. Vamos ler o que
livro nos diz. «Se queres alcançar algo que desejas tens que almejar o
impossível». Estás a ver? O quê? O rio parece que começou a encurtar! A folha
está bem mais perto. Não sei se o rio encurtou ou se fomos nós que crescemos.
Com o livro aberto talvez a folha queira voltar. Será que vai pousar? Vou
apontar o livro para um ponto bem alto. A folha parece estar a aproximar-se.
Está mesmo! Voltou a pousar no livro. Agora que já a temos de volta, vamos
descansar um pouco e depois retomamos a nossa aventura. Sim, mas antes vamos
ler o que mais está escrito nesta folha, a primeira que nós lemos. Só tem mais
uma frase. Qual é? «A imaginação é a
visão da alma» (citação de Joseph Joubert). Daqui não vamos querer sair.
Aqui vamos sempre estar. Se um dia sairmos, havemos de voltar. Se não
voltarmos, outros locais igualmente especiais havemos de encontrar para que
possamos explorar e escutar a imaginação que cresce ao ritmo do nosso amor.
Ainda bem que pegaste no nosso livro…

Sem comentários:
Enviar um comentário