Muitas
relações de amizade evoluem para configurações relacionais mais centradas em
objetivos comuns orientados para relacionamentos de especial intimidade (por
exemplo, relações de namoro ou conjugais). Contudo, não pretendo dedicar este
momento às relações deste tipo (que sofrem esta evolução), mas vou focar-me
numa caraterística que está presente nestas últimas e aplicar às relações de
amizade: o amor. Assim, vou falar do amor nas relações de amizade.
Acredito
que as relações de amizade, mesmo sem evoluírem para outras configurações (como
as mencionadas no início do parágrafo anterior), podem e devem assumir a
presença do amor (sem tabus) dentro de si mesmas. É o amor entre amigos. Nós
podemos amar os nossos amigos, sejam eles do mesmo sexo que nós ou não, tenham
uma cor de pele semelhante ou distinta da nossa, assumam gostos e ideologias
divergentes ou convergentes comparativamente com as nossas escolhas, ou adotem
alguma caraterística (mais estável ou potencialmente variável ao longo do
tempo) que esteja ou não em plena concordância com a nossa linha de pensamento.
É amar os outros aceitando as suas diferenças, neste caso amar os nossos amigos
em toda a plenitude da sua singularidade. Creio que não será difícil
identificar o amor no meio do emaranhado de sentimentos e emoções que (sentimos
e) vivenciamos com os nossos amigos. É, indubitavelmente, uma das razões que
nos torna tão vigorosamente unidos.
Considerando
o que foi anteriormente escrito, posso dizer que o amor não é exclusivo das
relações de namoro e conjugais (ou de outras configurações análogas), pois
também está presente nas relações de amizade (poderia até dizer que todas as
relações interpessoais têm um forte potencial para se assumirem como relações
amorosas, mas essa visão complexa e idealista, relativamente ao propósito e ao
rumo da sociedade, ficará para um momento mais oportuno). É, em parte, por este
extraordinário facto que partilhamos alegremente com os nossos amigos muitos
sonhos, vivemos com eles muitas aventuras e estamos com eles quando mais
precisam ou mesmo quando a necessidade está do nosso lado. Dito isto, parece-me
claro o desafio que vos quero lançar. Comecem a assumir o amor que sentem pelos
vossos amigos, através de uma técnica muito simples: a verbalização. Só falta
mesmo não haver medo de verbalizar porque tudo o resto já todos vocês fazem
muito bem, porque são pessoas extraordinárias para com os vossos amigos.
Acreditem que esta verbalização trará resultados surpreendentes porque fará com
que naturalmente assumam um compromisso incrivelmente maravilhoso.
Esta
assunção (e este compromisso) é uma premente mudança (cultural). Deve-se, no
entanto, respeitar o tempo que um processo desta natureza requer para alcançar
os objetivos a uma grande escala. Todavia, é importante referir que se, por um
lado, respeitamos e toleramos o processo de amadurecimento desta mudança,
também devemos, por outro lado, ser fortes, persistentes e resistentes perante
tentativas de desmantelamento forçado, arrogante, discreto ou dissimulado que
queiram impedir esta evolução. Há sempre vozes discordantes, que advêm, entre
outras razões, de alguma dificuldade de adaptação à mudança ou de falta de
hábito (isto é, não é um fenómeno normativo, logo é estranho e criticável à
primeira vista). Se, por alguma razão ou razão nenhuma, alguém vos acusar de
banalizar o amor (pelo uso excessivo desta palavra, através da escrita ou da
oralidade), digam-lhes que estão a ressignificá-lo e a universalizá-lo para que
as relações interpessoais atinjam uma outra dimensão, em prol de uma sociedade
mais unida, segura, confiante e feliz. Se mesmo assim eles não compreenderem,
não se preocupem porque a mudança que vocês irão ou estão a implementar fará
com que na linha do tempo a vossa forma de estar se torne mais estrutural na
sociedade (isto é, uma base exemplar), fazendo com que todos comecem a
compreender, a aceitar, a integrar, a amar e a transformar (a visão sobre) as
pessoas, as relações interpessoais e as relações com o mundo.

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