Fechados
no nosso mundo, cercados pelas nossas ambições, reservados na partilha dos
nossos sonhos mais profundos, acomodados com objetivos meramente individuais e
formatados para uma vida quase solitária. A descrição anteriormente explanada
refere-se aos indivíduos que adotaram (e adotam) um estilo de vida demasiado
centrado em si próprios, não dando espaço (isto é, oportunidade) para a entrada
de outras pessoas (ou seja, bloqueiam tudo o que vá para além de si mesmos) e
não manifestando atos de altruísmo e de entreajuda para com os outros – ser
altruísta não significa anular-se a si próprio; ser altruísta é «ajudar os
outros com o coração». Alguns gestos fazem a diferença (para todas as partes
envolvidas). Não uma diferença qualquer, como aquela que se baseia
exclusivamente em atos de autoafirmação, mas sim uma diferença necessária para
uma sociedade que ambiciona aproximar os seus agentes, em contraposição ao
afastamento e à competição feroz entre os próprios membros. Por vezes, basta
uma palavra genuinamente motivadora ou a cedência de um pedaço de tempo para
escutarmos o que alguém necessita de desabafar (sem posteriormente haver lugar
a atos de julgamento ou ao uso da informação para proveito próprio). Este tipo
de ajuda tem uma característica incrível: é imensuravelmente benéfica para a
saúde psíquica das pessoas e acopla um retorno incontornavelmente positivo,
sendo por isso vantajosa para quem dá e para quem recebe. Aliás, se analisarmos
bem, ambas as partes, em simultâneo, dão e recebem, pois existe uma troca
recíproca quando se praticam atos de entreajuda. No entanto, muitas mensagens
que veiculam pelo mundo desconsideram esta forma de viver. Preferem valorizar e
incentivar o foco desmesurado no «eu» (o que é imensamente conveniente para
alguns influentes políticos e partidos, para algumas áreas de negócio e elites,
entre outras figuras e «máquinas» manipuladoras e corruptas). Foi um trabalho
tão «bem feito» que rapidamente os seus autores convenceram as pessoas a
assumirem este modelo e a educarem a descendência familiar e societal com base
nesta linha comportamental. Inevitavelmente, a sociedade foi-se moldando a
estas estruturas (um efeito em grande escala). De tal forma que pensar e agir
de forma diferente nos dias de hoje é uma tarefa bastante complicada. Só se
torna possível com trabalho árduo de quem ambiciona a mudança e com muita
persistência, cujos resultados podem até nem aparecer no tempo de vida de um
sujeito, mas de certeza que aparecem no tempo de vida da comunidade terráquea.
Compreendo que quem viva sob este formato individualizado se questiona agora:
afinal que sentido faz mudar o comportamento se os resultados podem não
aparecer no meu tempo de vida? Ora, é precisamente aí que está a mudança que
proponho. Em primeiro lugar, quero clarificar que os resultados individuais (e
a um nível contextual mais micro) aparecem imediatamente, só demorarão muito
mais tempo os resultados a grande escala (a mudança da sociedade). Em segundo
lugar, deixem-me dizer-vos (com um enorme sorriso nos lábios) que este trabalho
já está a ser feito em muitas zonas do mundo e tenho a grande convicção que a
sua força não tardará a afirmar-se poderosamente. Em terceiro lugar, os atos de
altruísmo e de entreajuda não só se devem manifestar numa ação presente e
imediata, mas também num conjunto de ações (muitas vezes invisíveis) que só
terão efeito a longo prazo, para as gerações dos nossos filhos e netos,
esperando que depois haja um seguimento que continue a proporcionar uma
evolução positiva. É este o desafio de mudança.
Retomando
o estilo (doentio) da atualidade, questiono o seguinte: que consequências
apareceram (e estão à vista) com a adoção deste estilo de vida mais
egocêntrico? Indivíduos solitários, que vivem longe e/ou que se afastam de
todos, ou pessoas que vivem (e querem viver) rodeadas de outras pessoas (de uma
forma real ou virtual) mas que não são permeáveis à verdadeira convivência (e,
no limite, usam e abusam dos outros para se autopromoverem, para atingirem os
seus objetivos e para alcançarem os seus desejos mais intensos). Infelizmente,
o cenário que provém desta forma de estar no mundo é devastador e compromete
seriamente a vida de todos nós, tornando-nos «menos pessoas», menos capazes de
atos solidários, mais alheados das problemáticas sociais e com um vazio
individual enorme que pode levar a uma ausência de luz ao fundo do túnel (uma
sensação de impotência com óbvios efeitos indesejados). Mediante esta
constatação, levanto a seguinte questão: que caminho fez a sociedade para
chegar a este ponto? Sem entrar pelo emaranhado de explicações que tornariam a
resposta mais completa e complexa, quero centrar-me apenas num dos aspetos.
Assim, devo dizer que o caminho foi uma longa construção (de muitos anos) feito
a partir de uma base que decorreu de calculadas, permanentes e teimosas
mensagens que ditaram (e ainda ditam) fórmulas confusas e ilusórias para se
atingir a realização pessoal (aspeto que se tornou muito central na vida dos indivíduos).
Porém, apesar das múltiplas mensagens que muitas vezes se atropelam em
incoerências e falta de lógica, houve um ponto comum e aparentemente claro a
todas elas: a consideração do foco em nós próprios como o melhor (e exclusivo)
modo de obtermos os resultados pessoais mais surpreendentes e desejados. Desta
forma, compreende-se, em parte, as razões que levam tantas pessoas a
sentirem-se frustradas na sociedade. Quem só sabe, só fala e só age em torno do
seu umbigo, pouco conhecimento tem de si próprio (criando uma autoimagem, um
autoconceito e uma autoestima muito dispares de uma realidade homeostática) e
poucas ferramentas dispõe para combater os múltiplos desafios que a vida lhes
coloca (daí os comportamentos extremados que cada vez mais se ouvem, se leem e
se veem, originados pela sensação já mencionada de impotência). Assim,
considerando o que foi dito, surge uma outra (e essencial) questão: como
podemos mudar este (triste) cenário? Para que possamos combater esta «lavagem
cerebral» que algumas pessoas têm conseguido impor, almejo que possamos
conhecer efetivamente as vantagens individuais e sociais que conseguimos obter
com uma atitude e um comportamento mais descentrado de nós próprios e mais
próximo dos outros. Para isso, não esperem que crie uma lista com as vantagens,
porque a melhor maneira de as conhecermos é através da experiência. Quando
querem começar? Creio que está mais do que na hora de iniciar esta nova
caminhada. Todavia, não poderia deixar de dar a seguinte dica: lembremo-nos que
na vida real não podemos clicar num botão para ajudar os outros, para
adicionarmos amigos e encetarmos relações de grande satisfação, pois o caminho
que nos permite chegar mais perto das pessoas e à verdadeira amizade (e às
ligações afetivas que daí possam advir) constrói-se com convivência pura, com
partilha genuína, com um respeito natural, com pedaços de carinho (mesmo os
transparentes) e com muitos mais ingredientes que a presença física e/ou
psicológica nos permite inspirar e expirar num ritmo de paz, amor e harmonia.
Ainda estão à espera? Partam à descoberta!
Fora
do quadro da nossa vida também há espaço para os sonhos. Fora do quadro da
nossa vida há um mundo encantador para explorarmos, vivermos e sentirmos. Fora
do quadro da nossa vida há um mundo natural e humanamente maravilhoso que deve
ser regado com muito amor. Fora do quadro da nossa vida residem segredos tão
mágicos que quando os conhecemos ficamos com uma majestosa vontade de viver
(ainda mais) apaixonadamente cada segundo dos nossos dias. Para que possamos
fazer a viagem mais interessante da nossa vida, que é ao interior de nós
próprios, precisamos de nos relacionar com os outros (e ajudá-los) porque
sozinhos nunca vamos dispor de todos os elementos necessários para esta
interessantíssima viagem. Para os mais arrojados, podem ainda ter a
oportunidade de usufruírem de uma viagem guiada ao interior de outras pessoas
igualmente especiais. Uma viagem pela(s) vida(s) que pode aliar-se a viagens
pelo(s) mundo(s).

Sem comentários:
Enviar um comentário