Os
relacionamentos que se constroem sobre uma base de paixão e de amor normalmente
caraterizam-se por albergarem imponentes objetivos individuais e relacionais. É
um compromisso que se assume depois de uma exploração e reflexão conjunta das
exigências e das expetativas que depositamos em nós, no outro e na relação.
Alguns desses objetivos esvanecem-se (mais lenta ou mais rapidamente),
readaptam-se ou reformulam-se, e outros são definitivamente eliminados (o que
pode ser um bom pretexto para a introdução de novos). É normal e desejável que
assim seja porque uma relação quer-se evolutivamente dinâmica. No entanto,
alguns objetivos individuais assumem um formato «pessoal e intransmissível»,
não havendo espaço para a partilha dos mesmos com o outro elemento do casal,
assim como há outros que, mesmo tendo sido alvo de partilha, pelo facto de
terem desaparecido podem levar a fenómenos não desejáveis para as relações
amorosas. Um desses fenómenos não desejáveis é o surgimento de relacionamentos
extraconjugais. É uma temática que está atulhada de inúmeras opiniões e
julgamentos. Escreve-se tanto sobre este tema, mas nem sempre impera uma
abordagem séria, respeitadora e profunda. Aliás, navegam demasiadas vezes sobre
o acessório e não sobre o essencial. Por este facto, pretendo abordar este
assunto de uma forma diferente (menos comum e com um grau de profundidade que,
pelo menos, pretende distanciar-se do superficial). Os meus objetivos são os
seguintes: facilitar a compreensão destes fenómenos, transformar o modo como olhamos
para eles e delinear novas formas de ação perante os mesmos (quer enquanto
seres direta ou indiretamente envolvidos em experiências deste cariz, quer
enquanto observadores atentos ao mundo das relações). Assim, terminado o ato
introdutório à temática em causa, vamos deambular pelas linhas e palavras que
se seguem.
Para
começar, é importante pegar na relação extraconjugal e dividi-la em partes.
Assim, começo por referir que o início da relação extraconjugal pode resultar
de uma relação interpessoal já existente (sob o formato amoroso, apaixonado ou
nenhum deles) ou pode provir de uma «troca de olhares», mais ou menos
frequente, entre desconhecidos. Em ambas as situações podemos estar a falar de
um comportamento fruto do inesperado ou do improvável, precipitado por um ou
vários fatores contextuais, ou de uma ação premeditada – com ou sem «alvo»
definido. São, obviamente, situações muito diferentes. Quanto ao primeiro
pormenor (existência ou não de uma relação prévia): se já houver uma relação
prévia entre os elementos que vivem uma relação extraconjugal, quando falo de fatores contextuais refiro-me a um
determinado contexto que ambos frequentam de forma mais ou menos regular (por
exemplo, social, desportivo, académico ou profissional) que pode ser fortemente
propiciador do relacionamento extraconjugal (tanto o contexto como a
regularidade presencial no mesmo); se não houver uma relação prévia, quando
falo de fatores contextuais estou a
referir-me exatamente ao mesmo que esbocei no ponto anterior com a diferença
que ambos não se conhecem mas que podem «trocar olhares» e daí surgir o
relacionamento extraconjugal, ou simplesmente acontecer de forma quase
inexplicável (mais uma vez, o próprio contexto ou a regularidade no mesmo pode
ser um fator precipitante). Quanto ao segundo pormenor (acontecimento
inesperado ou ação premeditada), também há algo a dizer. Efetivamente, alguns
relacionamentos extraconjugais são o fruto da ocasião e/ou de um acaso
totalmente inesperado, ou seja, advêm de uma incontrolabilidade emocional e
sentimental que um determinado ambiente num contexto particular pode
proporcionar e que, de forma quase inevitável, leva à ação propriamente dita
(com um leque variadíssimo de formas de expressão). Há, todavia, outros que
surgem quase da mesma maneira mas com a diferença de já não serem um acaso
totalmente inesperado, pois a convivência prévia e os comportamentos adjacentes
ajudam a compreender o resultado final, logo não surpreendem, sem, no entanto,
se poder considerar algo premeditado. Mas, há também as ações premeditadas. Neste caso refiro-me a uma intenção clara de
alguém querer avançar para uma relação extraconjugal. No caso de já existir uma
relação anterior, tal situação acontece porque a amizade (ou a forte ligação
entre ambos – não falando de namoros antigos) já se encaminhava para uma
relação extraconjugal, assumindo lentamente uma amizade cada vez mais colorida.
São trajetos convivenciais que (sempre contemplaram ou que) culminaram num grau
elevado de desejo, num súbito palpitar apaixonante ou num amor vigoroso. No
caso de não existir uma relação prévia, quando falo de ação premeditada refiro-me à intenção clara de, pelo menos, alguma
das partes querer avançar para uma relação extraconjugal com alguém que já vem
vindo a observar (que tem na «mira» há algum tempo) ou com «alguéns» que
(quase) aleatoriamente se deseja (um hábito, uma necessidade, uma filosofia de
vida, uma vontade ou outro nome qualquer que queiram dar). São, assim, claros
efeitos provenientes de pensamentos direcionados para essa vontade e ação, isto
é, muito bem pensados, planeados e executados – uma ação deliberada.
Relativamente às componentes física e psicológica da relação, considerando o
fator tempo, a mesma pode assumir-se como fisicamente temporal ou intemporal e psicologicamente
temporal ou intemporal, adotando num determinado momento uma das várias
combinações que são possíveis de realizar com o que foi referido. Podemos,
assim, considerar, relativamente a este último fator (o tempo ou duração), os
dois seguintes tipos de relacionamentos extraconjugais: a aventurança que é
«sol de pouca dura» (embora nalguns casos teime em perdurar no pensamento) e a
aventura que pretende prolongar-se (ou simplesmente se prolonga) por um tempo
indeterminado (que, nalgumas vezes, pode começar por uma aventurança de «sol de
pouca dura»).
Como
se pode verificar, estes são apenas alguns exemplos que pretendem alertar para
a complexidade da temática. Se fizermos uma análise minuciosa conseguiremos
encontrar múltiplas formas dentro destes vários tipos. Seria interessante
analisá-las, mas o objetivo deste texto é dirigir o foco para os indivíduos que
vivem enraizados a relacionamentos extraconjugais, isto é, aqueles que
prolongam o relacionamento extraconjugal na linha do tempo (sem entrar no
pormenor dos acasos e das ações premeditadas). Dentro deste grupo quero
afunilar ainda mais, focando-me nos relacionamentos deste tipo onde se encontra
em pelo menos uma das partes uma vontade de transformar a relação numa outra
mais socialmente visível e claramente central na vida de ambos. Sob este
formato cabem os relacionamentos extraconjugais em que apenas um sujeito tem um
compromisso para além da «aventura» ou mesmo quando os dois o têm. Reforço e
clarifico que estou a falar dos casos em que existe pelo menos da parte de um
dos sujeitos a vontade de recriar o relacionamento em direção a um maior grau
de seriedade e ausente de secretismo, pois o envolvimento emocional e
sentimental já supera as expetativas e vivências iniciais caraterizadas por um
estilo de relação fugaz, recheado de encontros fugazes e secundário ou quase
inexistente do ponto de vista individual, relacional e social. Posto isto,
proponho-me a refletir um pouco sobre os mundos inquietantes e estimulantes
deste tipo muito particular de relações extraconjugais, embora muito do que
será dito possa convergir com outras situações de relacionamentos
extraconjugais.
Considerando
tudo o que foi dito, inicio este parágrafo usando a natureza como pano de
fundo. Desta forma, começo por dizer que na natureza, de vez em quando, há um
fenómeno intitulado de sismo (podem
chamar tremor de terra, se preferirem). Juntamente com ele há sempre
consequências mais ou menos positivas e até (severamente) negativas. É um
fenómeno que rompe com a frequente normalidade, criando novos e enérgicos
movimentos que vêm agitar o mundo, e que origina surpresas que podem trazer um
fundamental equilíbrio à vida ou um estonteante desequilíbrio (ou talvez venham
os dois em simultâneo). O mais difícil de gerir num fenómeno desta natureza é o
facto de nunca ninguém saber as verdadeiras consequências do mesmo, por mais
que tais acontecimentos possam ser esperados. O grau do impacto depende das
estruturas que estão criadas, da imensidade de variáveis direta e indiretamente
relacionadas com o momento concreto, do plano de prevenção adotado, entre
outros fatores. Contudo, independentemente das consequências, acredito que a
natureza aja com «a melhor das intenções». Nós, seres da natureza, também
seguimos as suas pisadas e procuramos (quase) sempre dar o nosso melhor a nós
próprios e aos outros (com toda a subjetividade inerente), não conseguindo
prever as consequências dos nossos atos (nem mesmo quando há um aparente
controlo e sob a alçada «da melhor das intenções»). Verdadeiramente, o ser
humano, por excelência, é um perito em agir convictamente rumo aos seus
objetivos (havendo grandes variações culturais e individuais), mesmo que as
barreiras sejam aparentemente impossíveis de deitar abaixo ou não ser
completamente visível a possibilidade de contorná-las. Carregamos hábitos e
rotinas, mas, por vezes, cansamo-nos deles e delas. Queremos sempre mais e
melhor! A saturação da monotonia que pode surgir na relação amorosa,
encaminha-nos primeiramente para a vontade de «saltar a cerca» (fruto de uma
tensão acumulada pela monotonia) e depois para o ato em si – «o sismo» (um
claro abalo na vida própria, nas outras vidas e nos sistemas de relações). Mas,
nalguns casos, as rotinas são substituídas por outras: a rotina do elemento
amoroso extraconjugal ou a rotina do hedonismo, por exemplo. A força
energizante da mente é tão grande que, por vezes, nos (des)controla totalmente,
rumando sempre para o caminho da tão ansiada felicidade, do bem-estar geral e
da busca incessante pelo prazer. Saiba-se, no entanto, que se nalguns momentos
uma relação extraconjugal pode fazer bem à saúde e à relação primeira, outras
vezes pode ser o fim da mesma, o que nem sempre significa que não siga os
mesmos efeitos (isto é, fazer bem à saúde e à relação). O que não faz nada bem
à saúde e à sociedade é a falta de respeito pelos sentimentos dos outros e
pelos sonhos de quem faz parte da nossa vida. Ou seja, se mantemos um
relacionamento extraconjugal estamos simultaneamente a desrespeitar a pessoa
que alimenta a nossa relação primeiramente assumida e a desconsiderar a pessoa
que nutre a nossa relação extraconjugal. E se, nalgum momento, tem que tomar
uma decisão, poderá ser colocada a seguinte questão pela pessoa da «relação
central»: «Isto é o princípio do fim ou o reinício de uma vida a dois?» (por
vezes esta questão nem sequer é colocada). No fundo, o seu companheiro ou a sua
companheira quer questionar (também para si próprio(a)) se a quebra de
confiança, um pilar basilar da relação, não permitirá uma continuidade do
relacionamento ou se, pelo esforço da construção da relação e pelo amor
presente, o perdão não será «presenteado» no futuro com novas traições. E, do
outro lado, a outra pessoa com quem iniciou momentos de maior intimidade ou,
pelo menos, de maior proximidade, também pode levantar a questão, com uma
pequena diferença: «Isto é o princípio do fim ou o início de uma vida a dois?».
Neste caso, quer saber se tudo se tratou apenas de uma aventura e que termina
«aqui e agora» ou se a relação a dois vai passar a ser central e única na vida
de ambos. No que se refere a esta última (a esperança da relação passar a ser
«central»), como um aparte, é bom referir que muitas vezes dentro da própria
relação extraconjugal existem várias ilusões criadas e mantidas pelo lado
humano de quem espera ansiosamente por uma decisão clara e definitiva do outro,
e/ou por este último fazer promessas de um final feliz que tarda em chegar ou
até se assume como um caráter eterno de «não decisão». Outras vezes, quando
chega, afinal é «mais do mesmo» ou pior ainda – em contraposição ao
comportamento verificado nos momentos presentes e/ou ao que prometia vir a ser.
O
que devemos e podemos fazer? As respostas estão nas especificidades de cada
relação. Todavia, para que mais facilmente ninguém saia (muito) magoado é
fundamental assumirmos as responsabilidades dos nossos atos, considerando,
acima de tudo, o impacto que nós temos na vida da(s) outra(s) pessoa(s) e daí
podermos civilizadamente tomarmos a opção mais correta, mais justa e mais sensata
para connosco próprios e para com a(s) outra(s) pessoa(s). É bom que ajamos em
conformidade com o respeito que todos devemos ter uns pelos outros (quer pelo
lado preventivo, quer pelo lado remediativo). Voltando à natureza, devo dizer
que assim como um sismo vem dar um abalo (mais ou menos forte) à mesma,
quebrando a rotina do dia-a-dia e tentando implementar alguns ajustes, na
espécie humana uma das razões apontadas ou uma das justificações dadas para o
surgimento de uma relação extraconjugal é a necessidade da quebra de rotinas na
relação amorosa e da introdução de novos estímulos na nossa vida (isto é, a
sensação de nos sentirmos vivos, desejados, amados e merecedores da
felicidade). É um fator (des)equilibrador que pensamos que a nossa vida
precisa. Porém, deixem-me dizer-vos que para que essa situação seja resolvida
de forma saudável não tem que necessariamente traduzir-se na busca de relações
extraconjugais (ou seja, a vida pode mesmo precisar de um «abalo», mas não
propriamente de uma relação extraconjugal), pois dentro da própria relação pode
haver uma gigantesca imaginação, criatividade e originalidade, cuja
consequência de toda essa variedade e adaptação ao parceiro pode resultar em
atos de fidelidade assumidos desde o início (sem que nos sintamos obrigados a
tal, ou seja, é o fluir genuíno da relação que se constrói diariamente). Mas,
acima de tudo, deve haver uma grande abertura em todo o processo de construção
de uma relação, havendo a assunção de ambas as partes do que querem
efetivamente para a relação e para cada um deles, e terem consciência que um
sismo tem efeitos incalculáveis e incontroláveis. Mas, encarando a realidade,
se o relacionamento extraconjugal tiver que ser alvo de análise, é essencial
considerarmos todo o enquadramento das razões que levaram ao ato extraconjugal
e relacioná-las com a vivência conjugal específica, para que se possa ver um
caminho rumo à consensualidade de vontades e sentimentos, de preferência que vá
ao encontro do que é melhor para ambos. Nalgumas vezes estes fenómenos
fortificam a relação (a médio/longo prazo), outras vezes abalam tanto (a
confiança) que acabam com ela (para sempre). Assim, uma relação extraconjugal
deve ser entendida à luz do casal e das pessoas em causa. Não pretendo
legitimar as relações extraconjugais, mas também não quero julgá-las e lançar
falsos moralismos. Se elas existem, não ganhamos nada em fugir das resoluções
possíveis destas situações (já todos sabemos que o desejável é não acontecerem,
pelo compromisso que se assume com o nosso companheiro ou com a nossa
companheira). O que pretendo é sugerir um caminho (de discussão conjunta
preventiva ou remediativa, consoante os casos) que possa tornar as relações
amorosas mais fortes, mais maduras, mais seguras, mais saudáveis e mais
equilibradas, nunca esquecendo o princípio da equidade nas relações. A análise
que possam fazer é uma oportunidade que estão a dar ao diálogo, à crítica
edificante e à capacidade de elevarem a maturidade vivencial e evolucional. É
uma lógica psicológica protetora da saúde mental da sociedade, do indivíduo e
das relações, do ponto de vista emocional, sentimental e relacional. Porém, é
um grande desafio. Ao aceitá-lo estarão mais preparados ou preparadas para
responder à seguinte pergunta que pode surgir um dia: «O que vivemos (ou o que
estamos a viver agora) é o princípio do fim ou o (re)início de uma vida a
dois?».
Para
finalizar, quero deixar uma mensagem para as pessoas que por rotina lançam
juízos de valor ou condenam socialmente os indivíduos que estão envolvidos
nestes fenómenos (naturais) da vida. Olhem seriamente para dentro de vós e
expressem-se em conformidade com o que veem, o que pensam, o que fazem e o que
sentem, sempre respeitando o espaço do(s) outro(s). Anulem os preconceitos
enraizados, a falsa moralidade e os tabus. Participem ativamente na ajuda da
construção de um mundo melhor (ausente de pensamentos e críticas exclusivamente
destrutivas), assente numa base de respeito pelas pessoas e pelas relações
humanas. Antes de criticarmos «por criticar» devemos explorar as razões que
levaram ao que aparentemente discordamos (e até condenamos, considerando os
nossos valores enraizados) para compreendermos melhor o fenómeno (que tão
queremos criticar negativamente). Há sempre várias leituras da mesma situação,
pois as pessoas posicionam-se em ângulos de visão diferentes – quem vive a
situação, quem optou propositadamente pelo modo de estar observável, quem se
deixou levar por um capricho ou um desejo intenso, não pesando os prós e os
contras, quem está mais direta ou indiretamente envolvido, entre outros. Estou
a pedir-vos para, no mínimo, terem abertura e disposição para compreendê-las (e
não julgá-las), podendo ou não aceitá-las. E, acima de tudo, deixem que o casal
encontre o seu caminho dentro da relação, sem atirarem cascas de banana para os
pés de um ou de outro, acrescido, por vezes, de um alheamento de
responsabilidades (ou seja, num tom de «se fosse eu, deixava-o(a) já!», acrescido,
por vezes, de um «mas não tenho nada a ver com isso porque tu é que sabes!». No
limite, se quiserem mesmo muito ajudar, sugiram profissionais que os possam
ajudar (a pensar e a agir), como os terapeutas de casais e/ou os psicólogos.
Pode ser uma excelente oportunidade para encontrarem uma luz ao fundo do túnel,
vá dar ela ao expectável ou ao improvável. Como nota conclusiva, diria que todo
este texto apela a uma sociedade mais madura (individual, relacional e
socialmente) na sua relação com os fenómenos da vida, logo a mensagem tem um
foco bem mais largo do que aquele que pode apenas visionar os relacionamentos
extraconjugais.

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