quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O princípio do fim ou o (re)início de uma vida a dois?





Os relacionamentos que se constroem sobre uma base de paixão e de amor normalmente caraterizam-se por albergarem imponentes objetivos individuais e relacionais. É um compromisso que se assume depois de uma exploração e reflexão conjunta das exigências e das expetativas que depositamos em nós, no outro e na relação. Alguns desses objetivos esvanecem-se (mais lenta ou mais rapidamente), readaptam-se ou reformulam-se, e outros são definitivamente eliminados (o que pode ser um bom pretexto para a introdução de novos). É normal e desejável que assim seja porque uma relação quer-se evolutivamente dinâmica. No entanto, alguns objetivos individuais assumem um formato «pessoal e intransmissível», não havendo espaço para a partilha dos mesmos com o outro elemento do casal, assim como há outros que, mesmo tendo sido alvo de partilha, pelo facto de terem desaparecido podem levar a fenómenos não desejáveis para as relações amorosas. Um desses fenómenos não desejáveis é o surgimento de relacionamentos extraconjugais. É uma temática que está atulhada de inúmeras opiniões e julgamentos. Escreve-se tanto sobre este tema, mas nem sempre impera uma abordagem séria, respeitadora e profunda. Aliás, navegam demasiadas vezes sobre o acessório e não sobre o essencial. Por este facto, pretendo abordar este assunto de uma forma diferente (menos comum e com um grau de profundidade que, pelo menos, pretende distanciar-se do superficial). Os meus objetivos são os seguintes: facilitar a compreensão destes fenómenos, transformar o modo como olhamos para eles e delinear novas formas de ação perante os mesmos (quer enquanto seres direta ou indiretamente envolvidos em experiências deste cariz, quer enquanto observadores atentos ao mundo das relações). Assim, terminado o ato introdutório à temática em causa, vamos deambular pelas linhas e palavras que se seguem.
Para começar, é importante pegar na relação extraconjugal e dividi-la em partes. Assim, começo por referir que o início da relação extraconjugal pode resultar de uma relação interpessoal já existente (sob o formato amoroso, apaixonado ou nenhum deles) ou pode provir de uma «troca de olhares», mais ou menos frequente, entre desconhecidos. Em ambas as situações podemos estar a falar de um comportamento fruto do inesperado ou do improvável, precipitado por um ou vários fatores contextuais, ou de uma ação premeditada – com ou sem «alvo» definido. São, obviamente, situações muito diferentes. Quanto ao primeiro pormenor (existência ou não de uma relação prévia): se já houver uma relação prévia entre os elementos que vivem uma relação extraconjugal, quando falo de fatores contextuais refiro-me a um determinado contexto que ambos frequentam de forma mais ou menos regular (por exemplo, social, desportivo, académico ou profissional) que pode ser fortemente propiciador do relacionamento extraconjugal (tanto o contexto como a regularidade presencial no mesmo); se não houver uma relação prévia, quando falo de fatores contextuais estou a referir-me exatamente ao mesmo que esbocei no ponto anterior com a diferença que ambos não se conhecem mas que podem «trocar olhares» e daí surgir o relacionamento extraconjugal, ou simplesmente acontecer de forma quase inexplicável (mais uma vez, o próprio contexto ou a regularidade no mesmo pode ser um fator precipitante). Quanto ao segundo pormenor (acontecimento inesperado ou ação premeditada), também há algo a dizer. Efetivamente, alguns relacionamentos extraconjugais são o fruto da ocasião e/ou de um acaso totalmente inesperado, ou seja, advêm de uma incontrolabilidade emocional e sentimental que um determinado ambiente num contexto particular pode proporcionar e que, de forma quase inevitável, leva à ação propriamente dita (com um leque variadíssimo de formas de expressão). Há, todavia, outros que surgem quase da mesma maneira mas com a diferença de já não serem um acaso totalmente inesperado, pois a convivência prévia e os comportamentos adjacentes ajudam a compreender o resultado final, logo não surpreendem, sem, no entanto, se poder considerar algo premeditado. Mas, há também as ações premeditadas. Neste caso refiro-me a uma intenção clara de alguém querer avançar para uma relação extraconjugal. No caso de já existir uma relação anterior, tal situação acontece porque a amizade (ou a forte ligação entre ambos – não falando de namoros antigos) já se encaminhava para uma relação extraconjugal, assumindo lentamente uma amizade cada vez mais colorida. São trajetos convivenciais que (sempre contemplaram ou que) culminaram num grau elevado de desejo, num súbito palpitar apaixonante ou num amor vigoroso. No caso de não existir uma relação prévia, quando falo de ação premeditada refiro-me à intenção clara de, pelo menos, alguma das partes querer avançar para uma relação extraconjugal com alguém que já vem vindo a observar (que tem na «mira» há algum tempo) ou com «alguéns» que (quase) aleatoriamente se deseja (um hábito, uma necessidade, uma filosofia de vida, uma vontade ou outro nome qualquer que queiram dar). São, assim, claros efeitos provenientes de pensamentos direcionados para essa vontade e ação, isto é, muito bem pensados, planeados e executados – uma ação deliberada. Relativamente às componentes física e psicológica da relação, considerando o fator tempo, a mesma pode assumir-se como fisicamente temporal ou intemporal e psicologicamente temporal ou intemporal, adotando num determinado momento uma das várias combinações que são possíveis de realizar com o que foi referido. Podemos, assim, considerar, relativamente a este último fator (o tempo ou duração), os dois seguintes tipos de relacionamentos extraconjugais: a aventurança que é «sol de pouca dura» (embora nalguns casos teime em perdurar no pensamento) e a aventura que pretende prolongar-se (ou simplesmente se prolonga) por um tempo indeterminado (que, nalgumas vezes, pode começar por uma aventurança de «sol de pouca dura»).
Como se pode verificar, estes são apenas alguns exemplos que pretendem alertar para a complexidade da temática. Se fizermos uma análise minuciosa conseguiremos encontrar múltiplas formas dentro destes vários tipos. Seria interessante analisá-las, mas o objetivo deste texto é dirigir o foco para os indivíduos que vivem enraizados a relacionamentos extraconjugais, isto é, aqueles que prolongam o relacionamento extraconjugal na linha do tempo (sem entrar no pormenor dos acasos e das ações premeditadas). Dentro deste grupo quero afunilar ainda mais, focando-me nos relacionamentos deste tipo onde se encontra em pelo menos uma das partes uma vontade de transformar a relação numa outra mais socialmente visível e claramente central na vida de ambos. Sob este formato cabem os relacionamentos extraconjugais em que apenas um sujeito tem um compromisso para além da «aventura» ou mesmo quando os dois o têm. Reforço e clarifico que estou a falar dos casos em que existe pelo menos da parte de um dos sujeitos a vontade de recriar o relacionamento em direção a um maior grau de seriedade e ausente de secretismo, pois o envolvimento emocional e sentimental já supera as expetativas e vivências iniciais caraterizadas por um estilo de relação fugaz, recheado de encontros fugazes e secundário ou quase inexistente do ponto de vista individual, relacional e social. Posto isto, proponho-me a refletir um pouco sobre os mundos inquietantes e estimulantes deste tipo muito particular de relações extraconjugais, embora muito do que será dito possa convergir com outras situações de relacionamentos extraconjugais.
Considerando tudo o que foi dito, inicio este parágrafo usando a natureza como pano de fundo. Desta forma, começo por dizer que na natureza, de vez em quando, há um fenómeno intitulado de sismo (podem chamar tremor de terra, se preferirem). Juntamente com ele há sempre consequências mais ou menos positivas e até (severamente) negativas. É um fenómeno que rompe com a frequente normalidade, criando novos e enérgicos movimentos que vêm agitar o mundo, e que origina surpresas que podem trazer um fundamental equilíbrio à vida ou um estonteante desequilíbrio (ou talvez venham os dois em simultâneo). O mais difícil de gerir num fenómeno desta natureza é o facto de nunca ninguém saber as verdadeiras consequências do mesmo, por mais que tais acontecimentos possam ser esperados. O grau do impacto depende das estruturas que estão criadas, da imensidade de variáveis direta e indiretamente relacionadas com o momento concreto, do plano de prevenção adotado, entre outros fatores. Contudo, independentemente das consequências, acredito que a natureza aja com «a melhor das intenções». Nós, seres da natureza, também seguimos as suas pisadas e procuramos (quase) sempre dar o nosso melhor a nós próprios e aos outros (com toda a subjetividade inerente), não conseguindo prever as consequências dos nossos atos (nem mesmo quando há um aparente controlo e sob a alçada «da melhor das intenções»). Verdadeiramente, o ser humano, por excelência, é um perito em agir convictamente rumo aos seus objetivos (havendo grandes variações culturais e individuais), mesmo que as barreiras sejam aparentemente impossíveis de deitar abaixo ou não ser completamente visível a possibilidade de contorná-las. Carregamos hábitos e rotinas, mas, por vezes, cansamo-nos deles e delas. Queremos sempre mais e melhor! A saturação da monotonia que pode surgir na relação amorosa, encaminha-nos primeiramente para a vontade de «saltar a cerca» (fruto de uma tensão acumulada pela monotonia) e depois para o ato em si – «o sismo» (um claro abalo na vida própria, nas outras vidas e nos sistemas de relações). Mas, nalguns casos, as rotinas são substituídas por outras: a rotina do elemento amoroso extraconjugal ou a rotina do hedonismo, por exemplo. A força energizante da mente é tão grande que, por vezes, nos (des)controla totalmente, rumando sempre para o caminho da tão ansiada felicidade, do bem-estar geral e da busca incessante pelo prazer. Saiba-se, no entanto, que se nalguns momentos uma relação extraconjugal pode fazer bem à saúde e à relação primeira, outras vezes pode ser o fim da mesma, o que nem sempre significa que não siga os mesmos efeitos (isto é, fazer bem à saúde e à relação). O que não faz nada bem à saúde e à sociedade é a falta de respeito pelos sentimentos dos outros e pelos sonhos de quem faz parte da nossa vida. Ou seja, se mantemos um relacionamento extraconjugal estamos simultaneamente a desrespeitar a pessoa que alimenta a nossa relação primeiramente assumida e a desconsiderar a pessoa que nutre a nossa relação extraconjugal. E se, nalgum momento, tem que tomar uma decisão, poderá ser colocada a seguinte questão pela pessoa da «relação central»: «Isto é o princípio do fim ou o reinício de uma vida a dois?» (por vezes esta questão nem sequer é colocada). No fundo, o seu companheiro ou a sua companheira quer questionar (também para si próprio(a)) se a quebra de confiança, um pilar basilar da relação, não permitirá uma continuidade do relacionamento ou se, pelo esforço da construção da relação e pelo amor presente, o perdão não será «presenteado» no futuro com novas traições. E, do outro lado, a outra pessoa com quem iniciou momentos de maior intimidade ou, pelo menos, de maior proximidade, também pode levantar a questão, com uma pequena diferença: «Isto é o princípio do fim ou o início de uma vida a dois?». Neste caso, quer saber se tudo se tratou apenas de uma aventura e que termina «aqui e agora» ou se a relação a dois vai passar a ser central e única na vida de ambos. No que se refere a esta última (a esperança da relação passar a ser «central»), como um aparte, é bom referir que muitas vezes dentro da própria relação extraconjugal existem várias ilusões criadas e mantidas pelo lado humano de quem espera ansiosamente por uma decisão clara e definitiva do outro, e/ou por este último fazer promessas de um final feliz que tarda em chegar ou até se assume como um caráter eterno de «não decisão». Outras vezes, quando chega, afinal é «mais do mesmo» ou pior ainda – em contraposição ao comportamento verificado nos momentos presentes e/ou ao que prometia vir a ser.
O que devemos e podemos fazer? As respostas estão nas especificidades de cada relação. Todavia, para que mais facilmente ninguém saia (muito) magoado é fundamental assumirmos as responsabilidades dos nossos atos, considerando, acima de tudo, o impacto que nós temos na vida da(s) outra(s) pessoa(s) e daí podermos civilizadamente tomarmos a opção mais correta, mais justa e mais sensata para connosco próprios e para com a(s) outra(s) pessoa(s). É bom que ajamos em conformidade com o respeito que todos devemos ter uns pelos outros (quer pelo lado preventivo, quer pelo lado remediativo). Voltando à natureza, devo dizer que assim como um sismo vem dar um abalo (mais ou menos forte) à mesma, quebrando a rotina do dia-a-dia e tentando implementar alguns ajustes, na espécie humana uma das razões apontadas ou uma das justificações dadas para o surgimento de uma relação extraconjugal é a necessidade da quebra de rotinas na relação amorosa e da introdução de novos estímulos na nossa vida (isto é, a sensação de nos sentirmos vivos, desejados, amados e merecedores da felicidade). É um fator (des)equilibrador que pensamos que a nossa vida precisa. Porém, deixem-me dizer-vos que para que essa situação seja resolvida de forma saudável não tem que necessariamente traduzir-se na busca de relações extraconjugais (ou seja, a vida pode mesmo precisar de um «abalo», mas não propriamente de uma relação extraconjugal), pois dentro da própria relação pode haver uma gigantesca imaginação, criatividade e originalidade, cuja consequência de toda essa variedade e adaptação ao parceiro pode resultar em atos de fidelidade assumidos desde o início (sem que nos sintamos obrigados a tal, ou seja, é o fluir genuíno da relação que se constrói diariamente). Mas, acima de tudo, deve haver uma grande abertura em todo o processo de construção de uma relação, havendo a assunção de ambas as partes do que querem efetivamente para a relação e para cada um deles, e terem consciência que um sismo tem efeitos incalculáveis e incontroláveis. Mas, encarando a realidade, se o relacionamento extraconjugal tiver que ser alvo de análise, é essencial considerarmos todo o enquadramento das razões que levaram ao ato extraconjugal e relacioná-las com a vivência conjugal específica, para que se possa ver um caminho rumo à consensualidade de vontades e sentimentos, de preferência que vá ao encontro do que é melhor para ambos. Nalgumas vezes estes fenómenos fortificam a relação (a médio/longo prazo), outras vezes abalam tanto (a confiança) que acabam com ela (para sempre). Assim, uma relação extraconjugal deve ser entendida à luz do casal e das pessoas em causa. Não pretendo legitimar as relações extraconjugais, mas também não quero julgá-las e lançar falsos moralismos. Se elas existem, não ganhamos nada em fugir das resoluções possíveis destas situações (já todos sabemos que o desejável é não acontecerem, pelo compromisso que se assume com o nosso companheiro ou com a nossa companheira). O que pretendo é sugerir um caminho (de discussão conjunta preventiva ou remediativa, consoante os casos) que possa tornar as relações amorosas mais fortes, mais maduras, mais seguras, mais saudáveis e mais equilibradas, nunca esquecendo o princípio da equidade nas relações. A análise que possam fazer é uma oportunidade que estão a dar ao diálogo, à crítica edificante e à capacidade de elevarem a maturidade vivencial e evolucional. É uma lógica psicológica protetora da saúde mental da sociedade, do indivíduo e das relações, do ponto de vista emocional, sentimental e relacional. Porém, é um grande desafio. Ao aceitá-lo estarão mais preparados ou preparadas para responder à seguinte pergunta que pode surgir um dia: «O que vivemos (ou o que estamos a viver agora) é o princípio do fim ou o (re)início de uma vida a dois?».
Para finalizar, quero deixar uma mensagem para as pessoas que por rotina lançam juízos de valor ou condenam socialmente os indivíduos que estão envolvidos nestes fenómenos (naturais) da vida. Olhem seriamente para dentro de vós e expressem-se em conformidade com o que veem, o que pensam, o que fazem e o que sentem, sempre respeitando o espaço do(s) outro(s). Anulem os preconceitos enraizados, a falsa moralidade e os tabus. Participem ativamente na ajuda da construção de um mundo melhor (ausente de pensamentos e críticas exclusivamente destrutivas), assente numa base de respeito pelas pessoas e pelas relações humanas. Antes de criticarmos «por criticar» devemos explorar as razões que levaram ao que aparentemente discordamos (e até condenamos, considerando os nossos valores enraizados) para compreendermos melhor o fenómeno (que tão queremos criticar negativamente). Há sempre várias leituras da mesma situação, pois as pessoas posicionam-se em ângulos de visão diferentes – quem vive a situação, quem optou propositadamente pelo modo de estar observável, quem se deixou levar por um capricho ou um desejo intenso, não pesando os prós e os contras, quem está mais direta ou indiretamente envolvido, entre outros. Estou a pedir-vos para, no mínimo, terem abertura e disposição para compreendê-las (e não julgá-las), podendo ou não aceitá-las. E, acima de tudo, deixem que o casal encontre o seu caminho dentro da relação, sem atirarem cascas de banana para os pés de um ou de outro, acrescido, por vezes, de um alheamento de responsabilidades (ou seja, num tom de «se fosse eu, deixava-o(a) já!», acrescido, por vezes, de um «mas não tenho nada a ver com isso porque tu é que sabes!». No limite, se quiserem mesmo muito ajudar, sugiram profissionais que os possam ajudar (a pensar e a agir), como os terapeutas de casais e/ou os psicólogos. Pode ser uma excelente oportunidade para encontrarem uma luz ao fundo do túnel, vá dar ela ao expectável ou ao improvável. Como nota conclusiva, diria que todo este texto apela a uma sociedade mais madura (individual, relacional e socialmente) na sua relação com os fenómenos da vida, logo a mensagem tem um foco bem mais largo do que aquele que pode apenas visionar os relacionamentos extraconjugais.


Sem comentários:

Enviar um comentário