sexta-feira, 11 de abril de 2014

Vou agarrado(a) a ti





«Agarrado a ti vou sem hesitar e se o chão desabar que nos leve aos dois. Vou agarrado a ti.» Expressão extraída da letra da música, interpretada por João Só e Lúcia Moniz, «Sorte grande».

               NÍVEL 1Eu e o «outro» íntimo.
            Agarrem-se às pessoas que amam (se possível, para sempre). Deixem-se levar pela envolvência relacional, pela paixão demolidora, pelo amor indescritível, pela proximidade invasiva, pelo abraço apertado, pelo perfume intenso, pelo riso contagiante, pelo sussurro sedutor, e por tudo o resto que é tão caraterístico da vossa pessoa, da outra, da vossa relação e do(s) momento(s) a dois. Deixem o «e se…» para outra altura. Avancem sem hesitações. Agarrem-se e deixem-se agarrar. Sintam a presença da alma livre que está convosco no pensamento e na proximidade física. 

            NÍVEL 2 Eu e o «outro» social.
Se temos a capacidade de nos agarrarmos aos que mais amamos, temos que aprender a chegar mais perto dos «outros», para podermos agarrá-los também. Uma fatia da sociedade faz-nos acreditar que a desagregação para com os «outros», numa lógica de culto pela individualidade e/ou um foco exclusivo nas nossas relações prediletas, é o caminho que nos vai levar às nossas metas. Detetam-nos esta necessidade, sem terem feito nenhum levantamento, cuja satisfação, segundo os critérios delineados, pode encaminhar para o lado oposto das nossas reais necessidades e desejos (logo, é uma ilusória satisfação). Impõe-nos um pensamento a «preto e branco» em que nos dão duas opções (das quais temos que fazer uma escolha): sermos livres (adotando um conceito redutor de liberdade, isto é, assumir que ser livre é viver sem amarras às pessoas, seguindo a máxima «primeiro, e acima de tudo, eu» – nalguns casos, numa visão extremista, elimina-se a possibilidade de uma ligação íntima seja com quem for) ou ficarmos amarrados ou agarrados a alguém (assumindo essa condição à de «prisioneiros»). Não nos dizem que a realidade em que vivemos pode e deve ser vivenciada nos cinzentos (isto é, com múltiplas opções, podendo ser complementares entre si), que não são dias chuvosos e tristes. São oportunidades de arrecadarmos experiências de excelência nos relacionamentos interpessoais, pela capacidade de nos agregarmos aos outros, às suas e às nossas causas (que muitas vezes coincidem), sem perdermos a nossa individualidade. A liberdade (e a felicidade) é um sabor resultante da união (amorosa e solidária) e não da satisfação das necessidades exclusivamente individuais (ora com uma caminhada solitária, ora usando os outros como meios de transporte quando a caminhada tem subidas ingremes). Por favor, não deixem que vos incutam paradigmas de «caminhada solitária» e de relacionamentos interpessoais descartáveis e oportunistas. 

            NÍVEL 3 Nós e os «outros» sociais.
É através da tal «caminhada solitária» e dos relacionamentos descartáveis e oportunistas que se implementam ações (muitas vezes políticas) de limpeza de «sujeira humana» em alguns locais do nosso país e do mundo, varrendo quem incomoda ou quem não interessa para uma espécie de contentor do lixo (não raras vezes, depois de terem sido usados interesseiramente, como quem diz «quando dá jeito»), acrescido, por vezes, de uma privação de reciclagem. Em vez de se agarrarem a quem mais necessita da sua ajuda, largam-nos para zonas desprotegidas (em consonância com padrões presentes nas suas relações mais próximas). Falta a capacidade e a vontade de enfrentar a realidade. E vocês? Vão aplaudir? O aplauso a esta forma de atuar (ou até a assunção de uma postura de inação perante tais ações), aumenta a probabilidade de virem a agir da mesma forma em várias situações da vossa vida (ou em todas), e estão a alimentar estas práticas e a dar cada vez mais poder a quem já o tem e que quer criar e continuar a manter desigualdades sociais. Se assim for, fiquem a saber que não estão a ser fortes, nem inteligentes. Estão, pelo contrário, a ser fracos e covardes. Mas, fiquem descansados porque não levam castigo por isso. Aliás, até podem receber vários elogios e prémios (que é excelente para elevar a autoestima!). É essa a vossa liberdade? Se for, parece-me algo redutora e egoísta. Onde está o vosso lado humanitário (respeito, aceitação e solidariedade para com os outros)? Saibam que do outro lado, em muitos casos, os «atacados» continuam a viver, a sorrir e a gerar sorrisos (mesmo sem aparentes motivos, mesmo em sofrimento) porque esses são os fortes, são os resilientes, ou seja, mesmo perante grandes adversidades conseguem «dar a volta por cima». Sabem porquê? É simples. Sabem unir-se (nalguns momentos através de iniciativas de pessoas e de profissionais atentos), não se desagregam da sua espécie (a espécie humana), dos seus valores grandiosos, e mantêm a esperança acesa que um dia a sua vida vai mudar para melhor. Infelizmente, muitos deles não aguentam tantos ataques. Não deixam de ser resilientes, mas o desgaste é tão grande que ficam sem força, sem voz, sem ajuda… e sem alternativa (de se unirem a alguém). Assim, se nós temos poder de escolha usemos a capacidade de nos agarrarmos a quem mais amamos – nível 1 – e também amemos quem não somos capazes de agarrar – nível 2 – e lutemos pela defesa dos valores humanos que muitas vezes são atropelados – nível 3. Unindo as três vertentes estamos a contribuir para uma sociedade mais justa, mais coesa e mais livre (e, inevitavelmente, para cada um dos seus indivíduos, onde nós também estamos incluídos). É um excelente exercício de combate ao sedentarismo no âmbito da intervenção social, humanitária e comunitária. É uma bela oportunidade de marcarmos a nossa posição e de darmos força a quem não tem voz (e a nós próprios, mesmo que tenhamos voz). A fórmula é simples mas o caminho é trabalhoso.

Em jeito de sistematização, partindo do princípio que temos um bom autoconhecimento, fruto de boas práticas relacionais, estamos mais aptos para nos darmos a quem mais amamos e de nos apaixonarmos sem fantasmas na cabeça. Não devemos ter medo desse envolvimento, até porque o mesmo é prolífero no contínuo processo de autoconhecimento (aliás, é fundamental). Depois dessa etapa bem construída, temos uma maior capacidade para nos envolvermos solidariamente com os «outros», que nos vão dar muitas razões para nos envolvermos nas suas (e nas nossas) causas e lutarmos por eles e por nós. Como vêm, a vida em sociedade é uma caminhada longa e desafiante, em contraposição à vida em «redomas» que nos faz pensar desde muito novos que a vida é curta e que, por isso, temos que viver cada dia como se não houvesse amanhã (um fardo pesado para as nossas costas), transformando a nossa caminhada num passeio (solitário) muito curto, cheio de stress e de frustrações. Querem uma caminhada longa ou curta? Parece-me que não há nenhuma dúvida quanto à resposta porque quem ama a vida quer viver para sempre (mesmo que isso implique trabalho árduo). Agarrem-se às vidas porque há sempre amanhã para alguém…

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