«Agarrado a ti vou sem hesitar
e se o chão desabar que nos leve aos dois. Vou agarrado a ti.» Expressão
extraída da letra da música, interpretada por João Só e Lúcia Moniz, «Sorte
grande».
NÍVEL 1 – Eu e o «outro»
íntimo.
Agarrem-se às pessoas que amam (se
possível, para sempre). Deixem-se levar pela envolvência relacional, pela
paixão demolidora, pelo amor indescritível, pela proximidade invasiva, pelo
abraço apertado, pelo perfume intenso, pelo riso contagiante, pelo sussurro
sedutor, e por tudo o resto que é tão caraterístico da vossa pessoa, da outra,
da vossa relação e do(s) momento(s) a dois. Deixem o «e se…» para outra altura.
Avancem sem hesitações. Agarrem-se e deixem-se agarrar. Sintam a presença da
alma livre que está convosco no pensamento e na proximidade física.
NÍVEL 2 – Eu e o «outro»
social.
Se
temos a capacidade de nos agarrarmos aos que mais amamos, temos que aprender a
chegar mais perto dos «outros», para podermos agarrá-los também. Uma fatia da
sociedade faz-nos acreditar que a desagregação para com os «outros», numa
lógica de culto pela individualidade e/ou um foco exclusivo nas nossas relações
prediletas, é o caminho que nos vai levar às nossas metas. Detetam-nos esta
necessidade, sem terem feito nenhum levantamento, cuja satisfação, segundo os
critérios delineados, pode encaminhar para o lado oposto das nossas reais
necessidades e desejos (logo, é uma ilusória satisfação). Impõe-nos um
pensamento a «preto e branco» em que nos dão duas opções (das quais temos que
fazer uma escolha): sermos livres (adotando um conceito redutor de liberdade,
isto é, assumir que ser livre é viver sem amarras às pessoas, seguindo a máxima
«primeiro, e acima de tudo, eu» – nalguns casos, numa visão extremista,
elimina-se a possibilidade de uma ligação íntima seja com quem for) ou ficarmos
amarrados ou agarrados a alguém (assumindo essa condição à de «prisioneiros»).
Não nos dizem que a realidade em que vivemos pode e deve ser vivenciada nos
cinzentos (isto é, com múltiplas opções, podendo ser complementares entre si),
que não são dias chuvosos e tristes. São oportunidades de arrecadarmos
experiências de excelência nos relacionamentos interpessoais, pela capacidade
de nos agregarmos aos outros, às suas e às nossas causas (que muitas vezes
coincidem), sem perdermos a nossa individualidade. A liberdade (e a felicidade)
é um sabor resultante da união (amorosa e solidária) e não da satisfação das
necessidades exclusivamente individuais (ora com uma caminhada solitária, ora
usando os outros como meios de transporte quando a caminhada tem subidas
ingremes). Por favor, não deixem que vos incutam paradigmas de «caminhada
solitária» e de relacionamentos interpessoais descartáveis e oportunistas.
NÍVEL 3 – Nós e os «outros»
sociais.
É
através da tal «caminhada solitária» e dos relacionamentos descartáveis e
oportunistas que se implementam ações (muitas vezes políticas) de limpeza de
«sujeira humana» em alguns locais do nosso país e do mundo, varrendo quem
incomoda ou quem não interessa para uma espécie de contentor do lixo (não raras
vezes, depois de terem sido usados interesseiramente, como quem diz «quando dá
jeito»), acrescido, por vezes, de uma privação de reciclagem. Em vez de se
agarrarem a quem mais necessita da sua ajuda, largam-nos para zonas
desprotegidas (em consonância com padrões presentes nas suas relações mais
próximas). Falta a capacidade e a vontade de enfrentar a realidade. E vocês? Vão
aplaudir? O aplauso a esta forma de atuar (ou até a assunção de uma postura de
inação perante tais ações), aumenta a probabilidade de virem a agir da mesma
forma em várias situações da vossa vida (ou em todas), e estão a alimentar
estas práticas e a dar cada vez mais poder a quem já o tem e que quer criar e
continuar a manter desigualdades sociais. Se assim for, fiquem a saber que não
estão a ser fortes, nem inteligentes. Estão, pelo contrário, a ser fracos e
covardes. Mas, fiquem descansados porque não levam castigo por isso. Aliás, até
podem receber vários elogios e prémios (que é excelente para elevar a
autoestima!). É essa a vossa liberdade? Se for, parece-me algo redutora e
egoísta. Onde está o vosso lado humanitário (respeito, aceitação e solidariedade
para com os outros)? Saibam que do outro lado, em muitos casos, os «atacados»
continuam a viver, a sorrir e a gerar sorrisos (mesmo sem aparentes motivos,
mesmo em sofrimento) porque esses são os fortes, são os resilientes, ou seja,
mesmo perante grandes adversidades conseguem «dar a volta por cima». Sabem
porquê? É simples. Sabem unir-se (nalguns momentos através de iniciativas de
pessoas e de profissionais atentos), não se desagregam da sua espécie (a
espécie humana), dos seus valores grandiosos, e mantêm a esperança acesa que um
dia a sua vida vai mudar para melhor. Infelizmente, muitos deles não aguentam
tantos ataques. Não deixam de ser resilientes, mas o desgaste é tão grande que
ficam sem força, sem voz, sem ajuda… e sem alternativa (de se unirem a alguém).
Assim, se nós temos poder de escolha usemos a capacidade de nos agarrarmos a
quem mais amamos – nível 1 – e também
amemos quem não somos capazes de agarrar – nível
2 – e lutemos pela defesa dos valores humanos que muitas vezes são
atropelados – nível 3. Unindo as três
vertentes estamos a contribuir para uma sociedade mais justa, mais coesa e mais
livre (e, inevitavelmente, para cada um dos seus indivíduos, onde nós também
estamos incluídos). É um excelente exercício de combate ao sedentarismo no âmbito
da intervenção social, humanitária e comunitária. É uma bela oportunidade de
marcarmos a nossa posição e de darmos força a quem não tem voz (e a nós
próprios, mesmo que tenhamos voz). A fórmula é simples mas o caminho é
trabalhoso.
Em
jeito de sistematização, partindo do princípio que temos um bom
autoconhecimento, fruto de boas práticas relacionais, estamos mais aptos para
nos darmos a quem mais amamos e de nos apaixonarmos sem fantasmas na cabeça.
Não devemos ter medo desse envolvimento, até porque o mesmo é prolífero no
contínuo processo de autoconhecimento (aliás, é fundamental). Depois dessa
etapa bem construída, temos uma maior capacidade para nos envolvermos
solidariamente com os «outros», que nos vão dar muitas razões para nos
envolvermos nas suas (e nas nossas) causas e lutarmos por eles e por nós. Como
vêm, a vida em sociedade é uma caminhada longa e desafiante, em contraposição à
vida em «redomas» que nos faz pensar desde muito novos que a vida é curta e
que, por isso, temos que viver cada dia como se não houvesse amanhã (um fardo
pesado para as nossas costas), transformando a nossa caminhada num passeio
(solitário) muito curto, cheio de stress
e de frustrações. Querem uma caminhada longa ou curta? Parece-me que não há
nenhuma dúvida quanto à resposta porque quem ama a vida quer viver para sempre
(mesmo que isso implique trabalho árduo). Agarrem-se às vidas porque há sempre
amanhã para alguém…

Sem comentários:
Enviar um comentário